domingo, 23 de dezembro de 2012

Os sonhos


Deitar, fechar os olhos e sentir que o mundo inexiste durante horas para no dia seguinte voltar à vida. Dormir é das coisas mais elementares da nossa vida. Em geral, ninguém quebra a cabeça pra entender o que é o sono: mero momento de repouso: tá cansado, dorme e pronto.

Mas é claro que não é bem assim. Você já pensou como é no mínimo surpreendente que nós, mamíferos tão atarefados e ansiosos, passemos um terço de nossa vida deitados, imóveis, apenas respirando e digerindo, enquanto que a vida continua “lá fora”, rápida e plena?


Cedendo ao gosto atual pelas estatísticas calculemos, se vc tiver a “sorte” de viver 100 anos, aproximadamente 33,333333 dos seus preciosos anos terão sido dedicados ao sono! Nossa, que coisa não? E daí?

E daí que cientistas, pensadores, sacerdotes e curandeiros de todos os tempos já pensaram no assunto e pra tentar entender porque os seres humanos não apenas dormem, mas precisam dormir tanto, inventaram as teorias mais diversas e criativas.

De viagens espirituais noturnas até uma mera sessão de recarga mental e muscular, o sono pode ser visto de inúmeras formas. Só mais recentemente, pesquisas mais profundas têm mostrado como simplesmente não sabemos quase que coisa nenhuma sobre o sono. Reduzir as oito horas que passamos de olhos fechados a um período em que a memória se conserva e os músculos relaxam é tão simplista que, como quase todo tipo de simplificação, chega a ser pateticamente burro...

Qualquer ser humano normal sabe que dormir é muito, mais muito mais do que descansar.

Quem diz sono diz sonho, e quem diz sonho diz altas histórias. Lembre a sua. Não é incrível do que nosso cérebro/corpo é capaz de criar durante essas horas em que nos fechamos para o mundo e somos apenas nós diante de nós mesmos para nós mesmos? Não é à toa que Jorge Luis Borges diz que o sonho é a primeira narrativa que o homem produz na vida – a narrativa universal... Encantador imaginar cada ser humano como um autor de histórias incríveis, não?

Estudos recentes mostram que longe de o sono ser um estado no qual o cérebro se desliga mergulhando num estado de letargia e inutilidade total, os ciclos cerebrais incluem fases em que o funcionamento do cérebro adormecido não perde em nada para o seu funcionamento durante o dia: mais especificamente, durante a fase REM do sono (REM é a sigla em inglês para movimentos rápidos dos olhos: quem nunca já ficou assistindo alguém dormir e percebe que num dado momento – sono REM – a pessoa mexe os olhos loucamente, balbucia frases sem sentido [ou às vezes com muito sentido até...] e até esboça movimentos com braços e pernas?) o padrão das ondas cerebrais é praticamente o mesmo daquele que exibimos ao longo do dia, quando estamos trabalhando ou tentando entender a vida. É como se dentro do sono, depois de uma fase em que o cérebro realmente parece ficar em modo off, a mente se ligasse de novo com força total – a diferença em relação à vigília é que em vez de o cérebro estar dedicado ao meio ambiente, ao mundo, na fase REM, o mundo do sonhador se resume ao que ele tem dentro de si mesmo... Imagine você abrir a porta da sua casa e se vê não dentro da sua sala, mas dentro de uma floresta cheia de rios, de uma Paris noturna cheia de cafés ou de uma biblioteca infinita... Pois muito bem. Quem não tem uma história boa pra contar sobre essas autoviagens ao mundo de si mesmo?

São tantas as histórias que muitas delas viram livros ou filmes ou ações. Gogol, Borges, Clarice, irmãos Wachowsky, Nolan, etc, etc – todos já compartilharam trechos de seus mundos sonhados conosco. E nem só de cenas absurdas, ambientações fantásticas, assassinatos e premiações catárticas são feitos os sonhos... E as previsões que se tornaram realidade no dia ou semana ou mês seguintes? E as respostas que um ente amado já falecido oferecem de graça em meio a cenas prosaicas ou não, durante os sonhos? E aquela pessoa que conhecemos no mundo real e que foi antecipada num sonho...

Oito horas da vida de uma pessoa tinham que fazer a diferença nas outras 16 de alguma maneira. Arte, religião e ciência bebem dos sonhos e do sono, de uma maneira ou de outra. Os extremos infantis de paraíso e inferno vêm de onde? E as cenas utópicas de pessoas andando de mãos dadas pra sempre sem querem se matarem? Coisas de sonhos. É mais fácil sim acreditar no lado maravilhoso, espiritual, mágico da vida quando se pensa e se vive nos sonhos. Quem falaria de Freud hoje em dia se não fosse o mistério que os sonhos têm para nós?

Esotéricos de um lado, cientistas de outro, religiosos ali, céticos acolá: pessoalmente me atrai o caráter artístico do sonho: a criatividade que minha cabecinha ansiosa demonstra de noite me deixa confusamente orgulhoso: orgulhoso de quem? De mim? Ou do meu corpo, que no vai e vem dos impulsos correndo pelo emaranhado de conexões dá origem a histórias tão bonitas e cheias de detalhes inventivos? Os de que mais gosto, tanto na literatura de verdade quanto na onírica são os sonhos dentro de outros sonhos. Quem nunca viveu essa experiência, I’m so sorry, porque é simplesmente incrível. A Origem exagerou o esquema, inventando uma boneca russa de sonhos de cinco níveis – pra mim, dois bastam pra me deixar bobo: você acordar, bocejar, pisar no chão pra logo em seguida entender que ainda não acordou – e imediatamente então, definitivamente (ou não...) acordar – não tem preço. Há quem considere isso a cara da psicose, da esquizofrenia: uma aluna minha disse ter se sentido meio perdida depois de ter visto A Origem. Mas não, não tem perigo de sair por aí se jogando do alto de edícios – o preço do feijão e do aluguel sempre me puxarão de volta ao mundo “real”.

Claro que nem pra todo mundo dormir é fonte de reflexões prenhes de magia e emoção. Para aqueles que têm dificuldade de dormir, sono e pesadelo são quase a mesma coisa. Mas isso seria tema pra outra conversa – aqui quero deixar a lembrança das imagens do cinema 3D de nós mesmos que são as nossas histórias oníricas, projetadas nas nuvens de algodão de uma noite bem dormida, durante a qual o mundo se torna muito maior, mais colorido e possível do que, em geral, realmente é...

E quem quiser contar um sonho, fique à vontade.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Não toque no meu deus


Eu quero acreditar que para apenas 0,0000025 das duas ou três pessoas que me leem muçulmanos são pessoas morenas com turbante na cabeça, que falam uma língua cheia de Ls e Rs e que vivem empunhando rifles sob um sol escaldante...

Diante do que se vê hoje na mídia, de fato é difícil visualizar a Era de Ouro árabe, tão admirada por pessoas como Jorge Luis Borges, quando a Europa era um continente primitivo e sujo que queimava pessoas, enquanto que os muçulmanos possuíam obras filosóficas clássicas, e tinham azulejos limpos, e produziam grandes nomes da medicina e na química. As Mil e Uma Noites, esse clássico incrivelmente belo e complexo, que mostra um universo no qual, mesmo sem saber, muitos de nós já vivemos, são praticamente impossíveis de evocar ao vermos homens-bombas explodindo, ou monstros disfarçados de manifestantes  religiosos estuprando um embaixador ameriano antes de assassiná-lo...

Uma frase como “nem sempre os deuses existiram” seria bombástica demais e inútil em relação ao que queria dizer; outra como “os deuses nunca exigiram tanta dor e morte” também seria inútil, além de mentirosa. Então passemos pra outra: “Que deuses são esses?”

No mesmo instante, haveria certamente quem protestasse dizendo: “Questione os que seguem esses deuses, e não os próprios deuses...”. Pois muto bem, ao invés dos deuses questionemos os crentes  (até porque estes são os únicos aos quais se têm acesso imediato... pelo menos em tese...)

Um suposto filme, chamado A Inocência dos Muçulmanos, teve um trailer de 15 minutos ressuscitado no youtube (sim, pois o vídeo se encontrava lá desde junho) há duas semanas: conta a história de um Maomé explorador de menores e violento, bem longe da imagem do profeta amado e adorado por mais de um bilhão de pessoas. Todos vimos na mídia que isso foi o bastante pra inflamar uma infitamente pequena parcela dessa população, mas suficiente pra fazer um bom estrago em vários países do mundo. Eu, pessoalmente, acompanhei os comentários online que as pessoas que acabavam de ver o vídeo faziam na página do youtube, a maioria extremista dos dois lados: americanos ignorantes e muçulmanos tão ignorantes quanto: as palavras de ordem eram de puro e surpreendente ódio, uma incompreensão mútua que num primeiro momento dava pena, depois medo e depois um certo desespero...

Intocáveis 2: "Não pode debochar!"*
*Tradução livre, leve e solta
Dias depois, uma publicação satírica francesa, Charlie Hebdo (por favor, não pronunciem, como os jornalistas daquele triste canal de comédia política, Globo News... o correto é char-lí heb-dô), publica, meio ineptamente, uma charge retratando o profeta Maomé... E isso pra quê? Pra jogar lenha na fogueira? Essa é a primeira hipótese, que foi a minha. Eles queriam apenas vender mais exemplares, pois são, como os próprios declararam ao Le Monde, gente de extrema esquerda que apenas procuram fazer algo engraçado. Pois sim. E me pareceram sinceros, apesar de um pouco inconsequentes. E o que fazemos com gente inconsequente? Estupramos, prendemos e queimamos, num é não?

Eis o ponto: se os árabes já representaram o que havia de mais avançado no passado, muita coisa aconteceu entre os séculos XIII e XXI, muita coisa mesmo, inclusive petróleo, Estados Unidos, Rússia e cia, com muita dose de ganância, cinismo, impiedade, racismo... Não se pode esquecer o papel de Israel na equação toda: não é a primeira vez que se vê na história o perseguido se tornar o perseguidor...

Enfim, muita água correu e o que temos é o que mais vemos: violência, extremismo... mesmo que praticados por uma minoria: sim, pois é uma minoria que queima carros, que degola cidadãos, que oprime seus pares. Mas é uma minoria organizada e articulada, que sabe cultivar e canalizar ódios e rancores seculares na hora certa: e é isso o que acontece agora. No mundo árabe, é bom lembrar que nem todo mundo tem acesso à mesma quantidade de informação a que temos aqui num país como o Brasil: o trailer do filme A Inocência dos Muçulmanos, que mais parece um episódio tosco do Chaves, tirado do contexto e propagado em tom de ódio, foi muito bem utilizado pra incendiar multidões de homens e mulheres que saíram às ruas gritando palavras de ordem de uma simplicidade absurda: ABAIXO A AMÉRICA...

Voltando aos editores e desenhistas do jornal francês Charlie Hebdo: há pouco tempo atrás, minha postura pessoal seria a de condená-los por sua inconsequência e balançar a cabeça até com raiva contra esses doidos irresponsáveis que só querem ver o circo pegar fogo... Mas, sinceramente, mudei de ideia.

Fui a Paris há dois meses e as coisas que vi lá me disseram coisas: me disseram que árabes e muçulmanos são pessoas respeitáveis e que têm todo o direito de abandonarem seus países arrasados pela cobiça e ingerência das antigas metrópoles, para virem viver nos países europeus... Mas tb entendi que um eterno ressentimento não pode servir de justificativa ou explicação válida permanente para todo tipo de reação ou ação destrutiva por parte de grupos oprimidos, com ou sem aspas.

Sim, lá eu vi ou senti um certo racismo no ar entre os franceses “de verdade” e os de origem árabe (mútuo, por falar nisso). Senti sim que a igualdade no país da declaração dos direitos humanos é ainda uma utopia. Mas tb senti outra coisa: há uma “vontade de não sair do lugar”, um desejo de “ser como somos e ponto final” que perpassa o ânimo desses mesmos oprimidos (sem aspas nenhumas). A postura de “sou assim e vc tem que me respeitar mesmo que isso inclua machucar pessoas de vez em quando” seria mais um abuso do direito a ser quem se é do que algo que realmente se grita nas ruas de Paris, sobretudo nas da periferia. Mas é esse abuso do direito a ser que é usado para justificar mortos e feridos nos protestos que vemos no mundo todo; é esse abuso do direito de ser que quer calar a boca dos desenhistas e editores do Charlie Hebdo; é esse mesmo abuso que faz com que uma instituição muçulmana chamada OIC queira que a ONU inclua na declaração dos direitos humanos a punição à blasfêmia...

Blasfêmia, punição, deuses... Isso lembra alguma coisa? Inquisição, Idade Média...?

Pois é. Respeitar toda e qualquer religião deve sim ser dever de todo cidadão, brasileiro, americano, etc. Mas temos que escolher entre os modos que podem ser utilizados para se responder a um ato de desrespeito: na maioria dos países ocidentais, trata-se de procurar um advogado e entrar com um processo. Este parece ser um modo adequado para a maneira que a nossa constituição brasileira nos propõe viver: cidadãos pluralmente constituídos vivendo em paz e harmonia (que toquem harpas...). Porém, o Extremist Arabian Way of Punishment não condiz com o que se pensa ser mais aceitável, e por isso, talvez um pouco mais de visão crítica sobre as manifestações induzidas pelos extremistas muçulmanos seja necessária.

Tratar os revoltosos religosos como crianças medievais que podem tacar fogo em tudo e que devem ser acariciadas em vez de punidas parece ser tão eficaz quanto condená-los de maneira sumária e intolerante, como o fazem evangélicos fundamentalistas americanos e brasileiros. Estes, aliás, se julgam bem acima daqueles, deplorando o ódio dos homens queimados de sol de rifles na mão... Mas olhe em volta, ou melhor ainda, olhe pra televisão: os homens de terno diante de multidões sustentam ideias que são muito parecidas com as dos extremistas muçulmanos quando falam das religiões dos outros: “Não podemos deixar ninguém tocar o nosso deus”, “Nossa fé é a única e verdadeira”, “Estamos em guerra contra os ímpios”, “Nosso deus não admite outros deuses”... É como se víssemos um espelho... mas há uma diferença: aqui neste país, como na França ou nos EUA, a lei não é religiosa pq existe um estado laico. E isso faz toda diferença. Por mais que um Malafaia da vida declare em alto e bom som que “os católicos deveriam descer o cacete nos gays”, isso fica apenas nos seus sonhos, em que provavelmente ele mesmo faria isso com trajes de sadomasoquismo... Mas (por enquanto) ele não ousaria pôr suas ações de amor ao próximo em prática.

E porque seria aceitável que muçulmanos, que creem num deus muito parecido, senão o mesmo, de cristãos e judeus, façam lá o que Malafaia quer fazer aqui?

Mesmo que os desenhistas franceses tenham de fato jogado lenha na fogueira, é bom saber que a fogueira queimaria de qualquer jeito: parece que enquanto Ocidente e mundo árabe não encontrarem um caminho que resulte numa maior intercompreensão, sempre haverá pirômanos prontos pra matar seus compatriotas em nome dos deuses, a fim de manter um pouco de poder.

O que queria dizer mesmo é que: deuses podem até ser intocáveis, mas os que causam dor e morte em seus nomes, não. E estou falando tanto da mulher-bomba que explodiu há dois dias quanto do jovem cristão presente na Marcha da Família que jogou uma lata de refrigerante na cabeça de uma moça homossexual que passava próximo...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Histórias únicas ou Viseiras de burro

Conhecer o mundo e suas coisas é conhecer suas histórias. Quando crianças ouvimos as histórias contadas pelos adultos, que as utilizam pra nos explicar o que vemos e não entendemos, como a chuva, o trovão, a morte. A curiosidade da criança faz com que absorvamos gulosamente tudo, e que tudo seja marcante no nosso modo de pensar: assim é que eu jurava que os trovões ocorriam quando duas nuvens se chocavam com força no céu nublado... Isso até que nos livros de ciência vi que a história que a minha mãe, mulher muito inteligente e criativa, contava não correspondia bem ao que chamamos de realidade. Mas no momento em que me foi dito que as nuvens se chocavam e produziam sons terríveis, aquilo fez sentido; tanto é que na minha cabeça aquela história se tinha incorporado como conhecimento válido sobre o mundo. A sorte foi que nunca precisei apresentar um trabalho científico sobre as tempestades antes de ter acesso à informação cientificamente correta...
Houve um tempo em que a chuva já foi a urina ou a saliva de Deus, o sexo já foi uma mera troca de sementes via beijo... Hoje, é óbvio que tais visões simplistas não cabem, por mais poéticas e ternas que sejam. Até o momento em que elas eram a única história conhecida, eeu não precisava me confrontar com realidades diferentes das do lar, onde havia conforto e segurança, não houve problema...

A questão é quando esse sistema de conhecimento baseado em “histórias únicas” prevalece e prossegue durante toda a vida de um ser humano. A chuva como saliva de Deus da criança pode, no adulto, se transformar em fonte de desentendimento, distância, estupidez...

Por exemplo, falemos dos estereótipos, que são versões adultas desse fenômeno da “história única”: todos nós já fizemos uso das simplificações extremas que são os estereótipos: os franceses não tomam banho, os africanos são esfomeados, gays são pervertidos, mulheres são frágeis, e por aí vai. É perfeitamente normal que se visite uma cidade ou país que não se conhece se utilizando de alguma informação ou fragmentos de informação a que se tenha tido acesso alguma vez. Ir a Paris achando que os franceses são contraditoriamente elegantes e fedorentos pode ser até aceitável; mas estar diante de pessoas educadas e ultra-limpas e ainda assim achar que as mesmas estão sujas por debaixo das roupas porque foi assim que se aprendeu, configura um certo nível de esquizofrenia, não?

Há exemplos menos cômicos do que é ser prisioneiro da viseira da burrice dos estereótipos, da versão única de uma história sobre um povo ou indivíduo: conversando com uma colega cabo-verdiana nos tempos de faculdade, ela falava do país dela com orgulho e também de como era irritante ter que explicar a pessoas curiosas e ingenuamente maldosas (ou cruelmente ingênuas) que nunca tinha montado numa girada ou passado fome ou tido um chimpanzé como animal de estimação... ou que não, não tinha parentes nem amigos que haviam morrido de aids... As lágrimas dela diziam o quanto de dor pode causar um coice de uma pessoa que se satisfaz apenas com o que ouviu falar ou o que disse um certo livro sobre tal coisa.

Pessoas pobres são ignorantes, pessoas ricas são “esclarecidas”... – os estereótipos são eficazes a tal ponto que podem simplesmente cegar diante do óbvio e ululante, diante do que está bem à nossa frente. Eles podam pessoas e grupos para caberem em pequenas gavetas que aprendemos a arrumar e organizar nos tempos de criança. A surpresa nos olhos ao ver uma mulher dirigindo bem, o “mas” na frase “é gay, mas é gente boa”, a incredulidade ao ver um africano com pós-doutorado – tudo isso são os relinchos do jumento que se assusta com tudo o que não esteja no campo de visão abarcado pelas suas viseiras... Ainda que relinchos possam machucar, seriam problemas menores se no mundo humano correspodedessem apenas a vocalizações desconexas... mas sabemos que seres humanos são bons em transformar toda e qualquer coisa em motivo para guerras e violência, e aí temos personagens malditos como o que costumo citar nos posts de protesto deste blog.

Se os jumentos com viseira dificilmente conseguem se livras das mesmas por meios próprios, é claríssimo que com seres humanos a coisa é diferente.

Ignorância mata, causa impotência, câncer e etc, mas tem cura. E essa cura passa pela curiosidade, ou menos exigentemente, pela não aceitação do que se ouviu uma vez ou de uma fonte apenas. Há vários níveis de “histórias únicas”: desde aquelas que dividem as pessoas em cristãos, gente do bem e pagãos, gente esquisita; até aquelas ideias do senhor chamado Freud, que por mais que não tenham nenhuma ou pouca base na realidade, seguem como revelação de um semideus ou de um iluminado...

Aceitar uma única versão sobre um fato, uma pessoa, um povo, uma história pode ser cômodo, pode ser o que certo grupo espera de vc. Mas se um coice seu doer em alguém, saiba que um dia o de alguém vai doer em vc também... De modo que pra evitar essas metáforas de jumentos, que tal deixar a preguiça de lado e, no mínimo, ler aquele outro jornal, consultar aquele outro autor, ou conversar com aquele outro amigo, antes de ultrassimplificar tudo e meter na gaveta do “Caso encerrado: eu sei que a vida é assim”?

P.S.: O que disse acima é praticamente uma recombinação dos elementos que Chimamanda Adichie brilhantemente apresentou numa das melhores conferências TED que já vi. Só não vejam se as viseiras não deixarem: http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Oráculos, destino, livre-arbítrio...

Quem já não sentiu o coração batendo forte diante daquelas cartas com ilustrações antigas e estranhas, ou daquelas previsões simplistas dos horóscopos dos jornais da vida, ou das camadas calcificadas abandonadas por seres marinhos jogadas sobre uma mesa...?

Sempre se quis saber o que há de vir – os que vêm com histórias de que “não aceito a ideia de que não sou dono do meu destino” se dizem isso mais ou menos como um mantra, mas no fundo no fundo, aquele pensamento de “maktub” uma hora ou outra vem à mente (e é uma pena que muita gente, inclusive eu, tenha ouvido essa palavra pela primeira vez na boca excessivamente faladeira de Paulo Coelho...). Não estou falando de ser adepto fundamentalista de cartas, búzios e efemérides de um lado, nem de ser pateticamente ultra-cético do outro... Estou falando daquele limite tênue entre uma coisa e outra, daqueles momentos dúbios em que por mais que não se queira, aquela ideiazinha chega, como quem não quer nada: “Tinha que acontecer...”.

Quem nunca sonhou com uma situação de perigo ou de alegria extrema, que, no dia ou dias seguintes, acabou realmente vivenciada? Ou quem nunca, meses depois de ter ouvido na voz profunda do vidente um certo destino, viu certos ou todos os elementos desfilarem no curso dos dias como eventos e fatos assombrosamente correspondentes? Pouquíssimos ousarão dizer um confiante “Nunca!” e muitos, claro, escorregarão num hipercrédulo “Várias vezes”.

Mas e aí? Ver o futuro e sua malha de fatos e feitos é mesmo um dom de algum grupo especial de seres humanos ou não-humanos? Ou simplesmente não: vivemos no presente e tudo o que há é o que vemos, sendo que o caminho só existe ao passo que o percorremos... Bem, só adianto que quem afirma com nariz empinado e certeza altiva a segunda opção deve se lembrar dos livros sagrados - Alcorão e Bíblia, por exemplo - nos quais uma boa parte do futuro da humanidade -  e, sob certas perspectivas místicas, o dos indivíduos também – está previsto. Mas se vc não for religioso, resta aquele “não sei” agnóstico e precavido, que no fundo no fundo, quer dizer “acredito mas não saio gritando isso por aí”.

Todos nós sabemos que o perigo se encontra nos extremos – aliás, quase todos nós... Parece que não sair de casa sem antes consultar algum tipo de oráculo pode ser tranquilamente classificado como um tipo de morbidez (isso sem se precisar fazer menção a qualquer tipo de “livre-arbítrio”, essa ideia tão, no mínimo, polêmica: até que ponto é livre o arbítrio de um ser humano se o mesmo depende de uma série de outros mecanismos, que hoje, sabe-se, não são nem um pouco livres nem arbitrários...?)... Porém, no entanto, todavia, afirmar com veemência de sábio incontestável que cada ser humano têm as rédeas de sua vida nas mãos, que o futuro é um a página em branco na qual escrevemos com a maior criatividade e liberdade circunstancialmente possíveis, embora seja uma visão mais respeitável – provavelmente por ser a mais condizente com o funcionamento do capitalismo – não parece ser muito saudável, se levada a extremos...

Sejamos mais claros: num sentido terapêutico, em dadas situações é muito mais efetivo convencer um amigo em dificuldades de que tudo vai dar certo, com certeza, claro, e etc – ou seja, determinismo. Mas em outras, por exemplo, em que tudo indique um final não-muito feliz, todos vão dizer que quem faz seu destino é vc e que “querer é poder”, e extrapolações do tipo. De modo que, é impossível ser uma coisa ou outra de forma completamente coerente, o tempo todo. Parece que cada um de nós tem seus momentos “a vida é minha e faço dela o que eu quiser” e de “deus escreve certo por linhas tortas”.

Se bem que a questão com que comecei era se é possível alguém ter acesso a informações privilegiadas a respeito do filme que é o mundo...

E eu sei lá! Senão vejamos:

Imaginemos uma pessoa que tranquilamente tome sua xícara de café ou litro de coca-cola na janela de um apartamento situado exatamente na esquina de duas ruas e de onde ela tenha visão privilegiada e completa das calçadas das duas ruas que se encontram. Esta mesma pessoa, observando a vida da esquina enquanto pensa sobre destino, digamos, vê se aproximarem um rapaz sobre seu skate e uma senhora com um vaso de flores, cada um numa rua, em direção à esquina. Com a xícara ou a garrafa na mão, a pessoa, que é um travesti, suponhamos, solta um pequeno riso ao ver que o choque inevitável entre a senhora e o skatista não produz nenhum efeito grave a não ser a surpresa, sobretudo da velhinha, e do vaso que ao cair no chão, felizmente não se quebrou. É claro que nosso observador travesti não compartilha da surpresa da velhinha singela e do skatista emo, pois ela já sabia...

Teóricos da teoria dos sistemas já diziam que quanto mais informação se tiver da posição e da interação de um sistema em um dado momento, mais fácil será para prever suas posições e interações no futuro... Ou seja, quanto mais se sabe do presente, mais se sabe do futuro. Claro e evidente... Se não fosse assim não existiria medicina nem química. Mas aí vêm teóricos da teoria do caos dizendo que há variáveis que são funções de aspectos mais ou menos desconhecidos do funcionamento desses mesmos sistemas, que interferem no presente de maneira tal que se torna praticamente impossível a previsão do futuro... ou seja, seja o que deus quiser. Efeito borboleta nos couros das pessoas...

E então?

E então que beber com moderação de cada um dos remédios pode ser uma solução ótima: tira o perigo de uma pessoa se tornar uma marionete sem ação que só funciona à base de tarô e signos e ascendentes e etc, ao mesmo tempo que se impede que alguém se perca num canto do labirinto da vida, batendo a cabeça contra o mundo, ou se aventurando de forma louca e desequilibrada...

E ainda sobra a questão sobre se é mesmo bom e útil se conhecer o futuro. Por exemplo, se vc fica sabendo agora, nesse instante, que está vivendo seus últimos dias de vida, vc vai realmentese sentir melhor e mais sábio, ou o stress e ansiedade vão estragar tudo de um jeito que a dádiva de informações vindas do futuro acabarão por bagunçar todo o presente? Outra questão que se segue seria: sabendo desse futuro, poderia mudá-lo? Ou “a pessoa é para o que nasce”, como dizem as ceguinhas de Campina Grande, e nada poderia ser feito?

Tá vendo, quem mandou começar a pensar sobre isso...

Bem, sei é que a vida continua, e agradeçamos a não sei quem por essa sensação muito convincente de “livre-arbítrio” com que vivemos, mesmo que em momentos pontuais na saga pessoal de cada um, entendamos que há uma grande possibilidade de que isso seja pura e terapêutica literatura.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O Jardim

O jardim


Sou como todo mundo, quando nasci não sabia o que era. No início do começo, minha existência se constituía de um ponto de vida. Vida ínfima. Sem saber de mim o meu derredor todo é que se fazia, a flutuar eu no limiar do pensamento. Tudo escuro, morno, úmido. Aí então, a partir de um momento primordial das coisas e de mim, viver e existir foram se compondo e comutando, em etapas, em cascas. Talvez com assombro eu tenha assistido água e pó me virarem na simetria do plano invisível que governa a terra - mas se o fiz, esqueci. Lembro da música, da voz de trovão, da de vento em flauta ou ira, e também do silêncio mais puro que já houve. Intempéries, emoções da hora, indo a vida e vindo.

Lembro da gênese da minha ousada ingenuidade, que tudo queria, na arrogância de achar que podia mais, apenas por ter podido uma vez, sem querer, viver. Ao longo dos dias e das noites sentia que escalava patamares mais sutis e complexos de possibilidades. Apêndices formavam-se segundo intrincada arquitetura antiga e nova ao mesmo tempo, nunca até hoje superada. Em nada notei mãos de artista, nada da marca individual de uma vontade clara – o que não é juízo, apenas leve constatação. Sei é que entre o mundo e eu há como que um sonho, e o que aqui digo é seu enredo, sem interesse. Pois falo comigo no tom de um rio que a si mesmo murmura águas. E são inexatas as coisas. Por exemplo, o mistério é eu não saber de onde vim: no bico de um pássaro, de uma semente de onde, de origem nebulosa, uma questão sem resposta... Os pássaros voam muito e vão longe, e por não falar a sua língua, fico quieto ignorando rotas e histórias. As flores belamente não se importam, em exército as abelhas de cor em cor trabalham e até à morte dançam...

Desde pequeno sinto e sigo o chamado do alto, modulado sempre pela tenacidade da voz da terra. Cada dia é uma luta, num banho diário de luz, ao sopro do vento morno. A minha fidelíssima sombra, ao chegar do fim do dia, cresce sem tamanho até se fundir com a geral da noite, em infinitos matizes de escuros e sonhos. O dia seguinte vem depois na roda dos ciclos com meu devido quinhão de sombra e luz novamente.

Meus atributos são largos e todos, porque não tenho nenhum. Não sinto a função, se é que tenho uma, por isso me interesso somente no nível que cada momento pede, o qual quase sempre é baixo, ou zero. A solidão me ensina tanto quanto a companhia daqueles com quem casualmente vivo. O silêncio da tarde tórrida me agrada e eu penso muito, muito, muito, suspirando. À noite eu respiro.

Antes, à tardinha, vem meu melhor amigo, com quem falo menos que o que queria, pois nos separa a barreira da linguagem. É uma amizade boa e agradável, no entanto. Na manhã em que o conheci logo vi como era inquieto, agitado, um tanto medroso. Dava a sua voz ao dia o dia inteiro, ávido, rápido. Era como um mundo que fosse acabar no dia seguinte. Sempre o admirei pela leveza e facilidade sua de viver. Ele mesmo, em alguns gestos de asa e cabeça, demonstrava mesmo seu orgulho e um tipo sem peso de altivez por suas habilidades próprias.

Porém logo vi também que poder ele voar pelo jardim e pela mata, solto no vento como nunca poderia eu ser, tinha seu preço: parece que o conheci ontem, mas segundo o que ele diz, em sua memória a minha figura alta e forte, verde, marrom, esteve sempre presente, ou aí figura desde que se entende por pássaro. Surpreso, sondando as histórias de minhas cascas e folhagens, de fato encontro na lembrança, muitas vidas e épocas esparsas; ao longo do tapete da passagem dos anos, milhões de abelhas, bilhões de formigas, besouros, milhares de pássaros e infinitos pardais... e entre estes descubro talvez esse que se aninhou em mim e sobre mim dormita...

Mas o que me importa o que eu não sei? O que me importa se na duração de um dia mil criaturas tristes e felizes riem e choram ao meu pé, na minha sombra? Que valor maior do que a qualidade de cristal candente dessa luz, têm seus sons sem sentido? Em minha volta, como o pardal nos meus braços, os homens montam seus ninhos de pedra, e os destroem, e sem saber como é a vida, vivem-na, assim, sem saber que não sabem...

Adicionar legenda

sábado, 30 de junho de 2012

A vida de uma pessoa


A pessoa acorda.
A pessoa tira as remelas dos olhos.
A pessoa pensa por segundos profundos que a água gelada que enche o copo pode ter sido bebida um dia por algum filósofo do passado... (Momento "somos pó de estrelas" e etc...)
A pessoa toma o café pensando no andamento do dia.
A pessoa sai para trabalhar e lamenta as horas perdidas que muita gente vai gastar no ônibus ou no carro, enquanto que aqueles passarinhos são tão livres (a pessoa tem rasgos poéticos esparsos durante o dia de vez em quando).
A pessoa dá bom dia e recebe bom dia da metade das outras pessoas.
A pessoa trabalha.
A pessoa sorri.
A pessoa liga para a pessoa amada e se sente menos estressada.
A pessoa pensa na vida dali a cinco anos durante o almoço (antes a pessoa prepara o almoço).
A pessoa volta ao trabalho.
A pessoa chega em casa feliz por ter cumprido 80% dos deveres pessoais.
A pessoa faz faxina segundo as circunstâncias exijam.
A pessoa sai com amigos no fim de semana.
A pessoa dá o lugar pra velhinha no ônibus e dá a vez pro apressado no cruzamento.
A pessoa não joga coco na praia nem lixo no chão.
A pessoa se espanta com os preços no supermercado e maldiz o governo por pegar 37% do seu dinheiro todo mês.
A pessoa espirra e se esforça pra que o espirro não atinja ninguém.
A pessoa dá descarga sempre.
A pessoa sorri a um bebê sorridente nos braços de uma mãe e se sente inexplicavelmente feliz.
A pessoa se lembra da infância.
A pessoa se lembra das pessoas que perdeu.
A pessoa dorme de uma vez e acorda tarde.
A pessoa tem momentos de vingança imaginária onde sangue e carne queimam.
A pessoa pensa bem, respira fundo, xinga mentalmente e vai viver a vida e etc.
A pessoa ouve piadinhas.
A pessoa vê outras pessoas dizendo que a pessoa vai pro inferno.
A pessoa fica possessa de ódio mas respira porque senão sai endoidando por aí.
A pessoa chega cansada em casa.
A pessoa liga a TV ou o computador e outras pessoas que se dizem santas vilipendiam a vida da pessoa.
A pessoa se indigna e pede paciência aos deuses.
A pessoa de vez em quando é esfaqueada.
A pessoa protesta... e outras pessoas protestam contra a pessoa pq a pessoa quer ser como qualquer pessoa.
A pessoa de vez em quando recebe socos na cara.
A pessoa fica com medo.
Mas a pessoa acha um absurdo e jura não ficar quieta.
Outras pessoas acham um absurdo a pessoa achar um absurdo ser esfaqueada de vez em quando por ser a pessoa mesma, e fazem marchas contras pessoas que querem se casar com pessoas.
As pessoa pira.
A pessoa quer mandar todo mundo pra... pessoa que o pariu.
Mas a pessoa respira e prefere fazer abaixo-assinados e votar nas pessoas certas.
A pessoa mais uma vez, em algum lugar do Brasil, leva uma lâmpada fluorescente na cara pq estava de mãos dadas com outra pessoa.
A pessoa tem medo.
A pessoa se pergunta, sem entender, pq é tão difícil para tantas pessoas aceitar outras pessoas do jeito que elas são, já que ninguém morreu, ninguém perdeu, ninguém roubou.
A pessoa se pergunta: PORQUE?
A pessoa é um assassino?
A pessoa é um ladrão?
A pessoa é um político corrupto?
A pessoa é um padre pedófilo?
A pessoa é um pastor que lidera igrejas de pessoas muito pobres mas que usa rolex e tem vários carros caros?
A pessoa sai de casa em casa perguntando o que as pessoas fazem a dois ou três ou quatro na cama?
A pessoa é Jesus Cristo pra levar na boa tentar ser uma boa pessoa e todo dia ser tratada como sub-pessoa?
A pessoa é louca?

NÃO, diz a pessoa.

A pessoa é gay.

E..?

A pessoa é simplesmente uma PESSOA, *ORRA!



terça-feira, 12 de junho de 2012

Para formigas e abelhas

Sim, é um dia como os outros - e por isso mesmo, um bom dia pra dedicar uma coisa que se pensou ser bonita ou bonitinha para a pessoa amada:

Não achei o título ainda, mas seria algo como "Eu te amo da cabeça aos pés" ou "Gosto até dos seus defeitos" ou "Olha, amor, que eu fiz pra vc..." ou "Leia e pelo menos finja que gostou".

Gosto do seu azul me olhando assim,
Dos toques vários de vermelhos da flor da pele
Do de dentro 
Que sai ora sol,
Ora chuva, ora amor, ora a morte.

Eu gosto do ninho desfeito nas tempestades nossas,
Que depois calmos fiamos pra mais tarde e pra mais noite.

Gosto quando os deuses bebem do sangue das nossas tragédias,
E embriagados morrem de rir se decompondo
Em borboletas ou cacos de vidro,
Pra conceder a graça do perdão no telefone.

Gosto das marcas do lençol no rosto,
Da noite toda na boca,
Da órbita lenta dos gestos recém amanhecidos,
Da falta do bom dia de ter nascido.

Gosto do dia mitológico da criação de Nós,
Das voltas doidas que o mundo nos dá,
Da gente tonto às vezes de existir
Procurando a mão do outro no escuro.

Eu gosto da saudade e dos nãos,
Das mãos, do cheiro e do pelo.
Gosto desse riso bobo na cara séria demais,
Gosto dos desgostos compensados no gosto do corpo,
Da forma e do tamanho do abraço.

Gosto do gosto da lágrima e do sorriso,
Dos demônios que educamos
Dos medos mal domados sob a cama.
Eu gosto dos cheiros todos dos momentos,
Do relógio que oscila e dá as horas,
Da impressão de apocalipse,
Da sensação de eternidade.

Gosto da nossa terra
Com seus mares
E desertos
E montanhas
E abismos,
Floresta verde, pedra nua
Campos, cactos, fomes, farturas
E estações de loucura
Primavera ou inferno ou tons de verão na praia,
Nunca sábios como num fim,
Sem a inocência do começo:
É assim que quero,
que gosto, 
que vivo,
que amo.


sábado, 26 de maio de 2012

É bom porque eu gosto ou eu gosto porque é bom?

"Ai, que fundamental é o jazz, não?"

As razões que se apresentam pra justificar a idéia de que gosto não se discute em geral têm a ver mais com diplomacia ou com preguiça intelectual e estética (seja lá o que for esta última) do que com uma reflexão sincera e objetiva sobre o assunto. Trocar figurinhas lógicas sobre o que faz bem esteticamente a um e outro, a mim me parece algo no mesmo nível de fazer comentários sobre o filme que se acabou de ver.

Ouvi ou li uma definição de belo que considero eficaz e agradável pela sua simplicidade: normalmente dizemos que algo é bom, belo, bonito quando experimentamos uma sensação de bem-estar diante do objeto em questão. Acho genial ligar bem-estar psíquico e físico à apreciação que chamamos estética ou artística: puxa de volta pro domínio do corpo e das sensações aquilo que um punhado de chatos tenta elevar ou seqüestrar para inalcançáveis domínios técnicos, metafísicos e abstratos.

Não ousaria vomitar aqui teorias sobre arte ou estética, mas arrisco dizer duas ou três coisinhas sobre o que acho que sinto quando digo que alguma coisa me agrada ou me repugna:

Desde sempre teóricos da arte julgavam que o seu tempo, a sua época era de decadência. Pegando a Poética de Horácio, passando pela Idade Média e pelo Renascimento, sempre se ouvirá da boca dos artistas a palavra decadência, equívoco, apocalipse, fim dos tempos... Hoje não é diferente, e o fato de que nunca na história do planeta tantos seres humanos produziram tanta música e imagens e outros objetos artísticos, talvez exagere essa impressão de que vivemos tempos áridos, de fim de mundo, para a arte...

Valeska Popozuda, Restart, Bjork, Lady Gaga, Beatles, Michel Teló, Gretchen, Roberto Carlos, Lenine, Ana Carolina, Bonde do Tigrão, The Verve, Sigur Rós, Ceguinhas de Campina Grande, Mia, Juanes, Massive Attack, Louise Attaque, João Gilberto, etc, etc... Pessoas que cospem sons, batem superfícies, acionam alavancas e manuseiam mecanismos eletrônicos pra produzir música. Em alguns ouvidos esses sons produzem sensações boas, em outros, início de ataques epilépticos. Sendo seres pensantes, somos capazes de criar teoria sobre toda e qualquer coisa, e quanto mais conhecimento se tem, maior será a capacidade de combinar num discurso coerente idéias sobre qual ritmo, letra ou melodia é esteticamente elevada ou válida ou não. No entanto, não há teoria ou cartilha artística que vá fazer um coração sincero bater mais devagar quando ouve um funk ou Beethoven. Alguém já foi convencido a sentir prazer? É possível implantar no corpo de alguém o gosto por alguma coisa, no sentido de esse gosto vir de fora? Sem subestimar os poderes dos mecanismos condicionantes behavioristas, num dado momento pontual e específico, ou se gosta de algo, ou não. Claro que se pode passar a gostar de algo que antes se detestava – mas está implícita a idéia de que não foi a música ou o quadro que mudou, e sim a “mente”, o “coração”, a sensibilidade.

De forma que – como explicar que aquela musiquinha chatinha de algo insuportável tenha se tornado uma coisa boa, bonita, bela? Simples: se o grupo de amigos considerar os novos gostos mais aceitáveis do que os de antes, é claro que a resposta para essa pergunta será: meu gosto evoluiu, refinou-se. Claro, claro. Adequou-se, digamos. Então a música era boa antes e depois de um percurso de melhoramento apreciativo vc descobriu, deu-se conta, abriu os olhos para a beleza inerente, para a grandeza estética dos sons?
Aham.

Se uso a palavra “belo” para aquilo que me faz bem aos olhos, ouvidos, nariz e pele, e sou inteligente o bastante para produzir uma teoria que justifique o porque da”beleza” desse objeto, não é um abuso lógico afirmar que tal beleza se encontrava no objeto antes de eu vê-la nele? “A beleza está nos olhos de quem vê” nunca foi uma frase tão lúcida e legal. Se uma peça de mictório num dado momento passou a ser considerada obra de arte, afirmar que a “beleza” intrínseca foi descoberta não seria um pedantismo narcisista bobo, uma tentativa cínica de os seres humanos se enganarem ao atribuir valor de verdade a uma apreciação circunstancial e vulgar? Todas as nossas teorias da arte meio que tentam, no fim das contas, desesperadamente distanciar a cena de japoneses fotografando a Monalisa no Louvre da cena de um chimpanzé em êxtase diante de uma Barbie decapitada com vestido vermelho: bem-estar psíquico – e portanto físico – do mesmo jeito.

Aí ainda vem nego no meio da noite e das mesas montar para si um pequeno palanque com garrafas e koffs koffs intelectuais e cheios de desprezo, e afirmar que: “Blá blá blá. Blá blá blá, Etc e tal co co co, co co co – e por isso sou superior e mais lúcido, pois aprecio o que é bom – palmas discretas para mim”. Ou melhor ainda: cria-se uma roda de escárnio diante de objeto X, amado por pessoa Y, e dois ou trÊs especialistas em estética se dão ao prazer patético de blá blá blá co có co, reduzindo o objeto X amado por Y a um punhado de cocô.

Não, eu não defendo o caos e o relativismo – nem os fundamentalísticos “tudo é bom” ou “tudo é uó”. Não acho que Valeska Popozuda e Michelângelo se equivalham em suas performances artísticas. No entanto, os seres humanos que os apreciam/detestam em tese sempre se equivalem enquanto tais. Se não sou nem obrigado a andar de mãos dadas com os adoradores de Restart ou dos Beatles, nem por isso vou fazer rituais tupinambás de canibalismo emocional no melhor estilo “tenho 12 anos e minha mochila é melhor do que a suaaaaa”.

Que para alguns ou algumas Os Pholhas sejam superiores/inferiores a Gretchen (que uns causem crise de risos e outra de alegria) é completamente aceitável; MAS que alguns e algumas se achem essencialmente superiores aos outros porque sabem o que é belo e bom e bonito, é algo que se responde com um pulquérrimo e sonoro “Vá pra p*t* que pariu”.

Alguém discorda de que essa frase dita naquele tom de satisfação e catarse profundas seja uma coisa BELA?



Eu sei. You’re upper.



domingo, 6 de maio de 2012

Queremos o seu dinheiro, não você

Ah o dinheiro... No bolso é vendaval e nos bancos, rendendo infinitamente para enriquecer pessoas já ricas a partir de uma nuvem de teorias e humores do mercado, é o oxigênio do nosso mundo financeiro... Vc já parou pra pensar como é estranho uma civilização inteira construir praticamente todos os âmbitos de sua existência baseada na busca pelo dinheiro? Vc já pensou como isso é esquisito? Vc consegue imaginar  uma formiga enfiando a haste de uma folha de árvore no abdome de outra pra roubar um pedregulho microscópico que a outra estivesse carregando? Um alienígena chegando no nosso planeta talvez demorasse pra entender pseudo-tragédias como as crises de 2008 e 2011 - crises de espuma, produzidas, previstas e fomentadas por crianças especuladoras brincando na banheira... Ou talvez nos entendessem logo: civilização burra.

Humberto Maturana tem ideias interessantes sobre o assunto (aliás, quase todas as ideias de Maturana sobre qualquer coisa são interessantes, leiam): ele diz, por exemplo, que um sistema social só pode ser considerado como tal se a finalidade de seu funcionamento for a manutenção da vida de seus próprios elementos, o que, no caso do sistema social humano, seriam as pessoas. A partir disso, ele afirma que um formigueiro é um sistema social, assim como uma colmeia ou uma tribo de bonobos; mas as sociedades ocidentais ou ocidentalizadas atuais não, pois sua finalidade não é a manutenção da vida de seus membros, mas sim a continuidade de um sistema financeiro que garanta ganhos para um grupo seleto de seres humanos.

Pois muito bem, "eu quero seu dinheiro e não vc" poderia ser contestado em favor de algo mais cínico e lógico como "eu quero seu dinheiro e, portanto, vc". Mas o pior que no assunto de que quero falar não se trata nem disso.

Resumidamente: franceses, americanos, suecos, chineses, suíços, espanhois, belgas querem morango, carne, tabaco, iPhones, ouro, diamantes a preço de banana; passaram séculos viajando o mundo todo, desmantelando uma cultura aqui, promovendo uma matança ou guerrinha suja ali, sugando um país acolá... Inventaram meios de transporte cada vez mais rápidos pra facilitar o trânsito de pessoas (ou talvez principalmente de coisas...); começaram a deixar entrar em seus reinos pessoas ávidas para fazer aquele trabalho subalterno que seus súditos não suportam (ou suportavam) fazer... e agora, depois de terem convidado todos pra festa, querem acabar com a diversão?

A bandeira aparente das extremas direitas no mundo parece ser exatamente essa "queremos que todos sejam felizes, sobretudo se forem nos vendendo seus produtos e serviços quase de graça; mas cada um no seu quadrado"... Mais ou menos uma globalização medieval, uma abertura fechada: coisas e dinheiro entram, gente, não.

Breivik, Le Pen (pai e filha), Bush são sacerdotes dessa nova religião da xenofobia. São capazes de esbravejar e guerrear por petróleo mais barato, telefones, roupas e comida quase de graça, mesmo que produzidos por crianças ou trabalhadores à beira da estafa e do suicídio, mas não aceitam a livre circulação de pessoas, mais precisamente daquelas pessoas que descendem daquelas outras pessoas que tiveram seus países invadidos no passado para dar lugar àquilo que se chamava de colonização e/ou processo civilizatório.

Pois muito bem: ei-los aí: marroquinos, líbios, sul-americanos, argelinos, mexicanos - todos loucos pra serem as pessoas bem-nutridas e felizes da Declaração dos Direitos Humanos, cada um do seu jeito, cada um segundo a sua cultura, cruzando com perigo de morte as mesmas fronteiras e mares que há séculos eram cruzados no caminho inverso pra promover a pilhagem europeia aprovada por deuses, reis e sacerdotes. Como se diz hoje (e agora vou ser bem cínico), chupem essa.

Pelo que entendi do que alguns experts no assunto dizem, a alternativa à globalização é a adoção de um sistema hi-tech de feudos à la Idade Média - cidades conectadas umas às outras de forma clean e segura, com pessoas sorridentes com seus smartphones e calorias por dia asseguradas. No entanto sabemos que essas utopias esbarram em realidades bem adversas, e mais do que nessas realidades adversas, no desinteresse governamental geral em resolver seriamente problemas como a fome, as doenças e a ignorância - já que essas continuam a ser úteis, de alguma forma, a algumas pessoas e grupos.

O mais provável é uma Nova Idade Média mesmo, onde todos os países se isolam, fingindo viver num mundo mais saudável e evoluído do que o de um século atrás, enquanto que a cena atemporal de uma criança pedindo comida em algum país pobre do mundo continua a ser usada quando convém. Uma Nova Idade Média com direito a suas novas versões de cruzadas religiosas: as fundamentalistas, que no seu momento oportuno, começariam com queimas do alcorão por um pastor louco americano ou da bíblia por seus equivalentes muçulmanos... e já teríamos aí a justificativa pra uma guerra: que por sua vez resultaria em mais avanço tecnológico e petróleo, ou água... Que por sua vez resultaria em um crescimento econômico de uma década, seguido por uma crise financeira de outra década... e assim sucessivamente... até que alguém se toque e comece uma revolução de verdade, sem muito drama e falsas palavras romantizadas como "paz" e "liberdade" e pior ainda, "deus".

terça-feira, 24 de abril de 2012

Blá blá blá


Blá blá blá

Dalí
Vejo o mar no céu e peixes a voar
A fazer borbulhas de amor à luz do sol
Filtrado em nuvens de drama que inflam
Como os momentos gulosos
De estarem sendo, de quererem ser.

Nem pergunte.
O céu é uma exclamação só
Os vermes também
E a canção em ultrassom
De cetáceos no ventre escuro à noite de sal
Só afirma, só diz longo sim
Puro, límpido, agressivo e faminto sim de Nietzsche.

Não fui ontem que nasci
Foi sempre
E embora rinocerontes sempre também passem pisando
Em insetos esmagados por engrenagens de relógios existenciais
E em seres humanos cegos e surdos ao óbvio do chão de pó tão eloqüente
Vale a pena crer e querer
Que tudo tenha seu secreto sentido
Escondido, invisível, intangível, inodoro, silente, ironicamente contente
De nunca ter sido achado...

Tudo termina com risos (de alguém)
E relógios derretidos.


domingo, 1 de abril de 2012

A mesma língua

A mesma língua


     Queimou-me o café a língua, pensou, feliz sobre a dor esquecida pelo deslizar articulado da frase.

     Queimei a língua, pensava sua boca, cálido vão de vermelho oculto que se mostrava nas palavras sopradas gratuitas sobre a mesa.

     Esta era um círculo de conversas dentro de outro círculo de conversas, pedidos e ordens.

     Ele com a língua ardente. Sentiu-a como se se desmanchasse um pouco. Certificou-se dessa ilusão contraindo o músculo em auto-análise e depois comunicando a todos que: queimara a língua.

     Um silêncio de diálogos não interrompidos e uma gargalhada estrangeira e inconsciente de queimaduras vieram numa resposta mural que ele, depois de um instante de espanto desprezado, viu finalmente que era rica de permissões e concessões. Que se alegrasse pois, dessa concessão de fazer e estar: estava só, mudo, ignorado por enquanto, livre para fazer-se em pira todo o seu ser a partir de sua boca, se quisesse.

     Pois muito bem, engoliu com uma saliva mais quente com gosto de café a sua liberdade dentro do círculo e ordenou sucinto à sua boca que comesse. Ela, que nem era dessas coisas de devorar ávida o mundo, obedeceu, e demais, como ele queria de fato, e o fez como se boca de selvagem felino fosse e não de primata doméstico, e visse no pão com queijo e presunto um pescoço liso e suculento de gazela.

     Mastigou plenamente diante de uma câmera, muito intrusa, ali escondida, e mal, a supervisionar a segurança do repasto geral.

     Mastigou como uma vaca automática. Se um de seus amigos porventura descesse de suas gargalhadas e o mirasse com súbita esperança, certamente se surpreenderia sem saber se ele era como todos e engolia de vez em quando o bolo da boca ou se tudo era uma só mastigação ininterrupta e que sua boca era bruta e só enviava tudo ao estômago de uma vez, não em prestações.

     De fato, uma vez se dignara a contar, e sua mandíbula, soube, triturava o alimento quarenta vezes antes de dispensar a sofrida comida esbagaçada a seu destino de dissolução e transmorfia.

     Às vezes cansava de mastigar. Ficava exausto. Mas como gozasse da liberdade de não existir naqueles instantes de alheamento do grupo, com apenas metade do número assinalado, deixou que dum escuro quente ao outro, ácido, deslizasse o que havia sido parte de um singelo pão com queijo e presunto, e de uma gazela africana.

     Viu-se então esvaziado de sentido, terminado o processo de mastigação sem cansaço. Com nojo, pensou mesmo em camelos e vacas, e cogitou em que se pudesse, convocaria o ido conteúdo a outras vinte vergastadas. Confundiu-o um pouco a dúvida sobre a capacidade de ruminar do camelo...

     Mas, sim, esvaziado ficou, porém não tanto tempo. Apalpou a boca com a língua, e enquanto buscava não se sabe o que nos vãos e desvãos de dentro com o visco do músculo, ao mesmo tempo os olhos respondiam com uma busca externa isenta de fins, a circular pelo recinto híbrido de fast food e comida lerda.

     Tranqüilo momento de mundo a se passar se passou. Seus amigos voando nas palavras, araras, flamingos matraqueando sobre um verde e alegre lago, ele o hipopótamo feito em sapo, e em nenúfar, e em mosquito, e em brisa, e em águas boas...

     E então houve um cachorro.

     No ir e vir das gentes e gentinhas e vozes e vozezinhas e cheiros de carboidratos diversos, vinha e ia o cachorro.

     Ele lá dentro, seu rosto de símio perdido e medroso, com uma busca sem fim de uma língua queimada, entre os arbustos de ombros e cabeças dos amigos a mirar.

     Ele lá fora, a língua de fora, fora sua cachorrice expressa no trote quase eqüino, uma longa cor de marfim, uma atitude cristã de procissão apressada sem deus ou santo à frente, a noite amarelada do poste a circundar-lhe a existência. Era um cachorro extremamente completo, notou.

     Porém numa imagem incompleta. Pois não tinha ares de mendigo canídeo, opunha mesmo à sua posição humilde na arrogante escala da evolução dos seres animados uma arrogância tal que, em sinal de mútuo respeito e aprovação, riram um ao outro, contentes sobre os dentes: é, é assim mesmo.

     Mas parecia mais uma arrogância de cão de dono rico, pensou, decepcionando-se.

     Todavia sem dono ia o cão. Lindamente sem dono e sem cego. E a isso devia-se a incompletude, como percebeu em sua apreciação, nem sonhando com a mosca preta encarada pelo olho preto e curioso da câmera, pousada no queijo e sua ponta desfalecida na massa do pão: era um cão que, em seu perfeito marchar de cão de dono rico, parecia que era conduzido por alguém, ou a alguém conduzisse: um dono ou um cego invisível.

     Em seguida refletiu sobre a limpeza do cachorro orgulhoso e da sujeira do centro da cidade. Mais uma falta no cão: a sujeira. Outra ainda: o abandono. Assim era um cão sem cego e sem dono e sem afinidade com as ruas do centro. De certo, pois, era um ser de outros ecossistemas, outros lugares, talvez de outro planeta. Fugitivo, desertor, invasor, quem sabe. Muito senhor de si, esse cão, refletiu. E mais uma vez riu, supondo a metáfora de um mundo de cães senhores de metrópoles sujas com homens a ladrar e a serem coletados em carrocinhas.

     Quis aprofundar-se no mistério do cachorro indevido a desfilar limpo na calçada imprópria – e vejam, tantos pães e guloseimas nas vitrines e ele nem olhava! – mas uma voz ordenou adoçante...

     Sua atenção vacilou e num espaço de um flash o cachorro inexistiu, o que o irritou. Mas o trato que vinha de desde antes da língua chamuscada do café, e da verborragia dos amigos era de que ele talvez não existisse ali (ele que de fato nos últimos tempos realmente não tinha estado ali no círculo), e com uma cara de máscara abobalhada disse, sem abrir a boca, com indizível abuso, que não incomodasse sua ausência na mesa com um pedido de adoçante, ora – que respeitasse as leis, e que além do mais havia o cachorro e seu enigma.

     O adoçante jazia à sombra dos guardanapos, como observava o canto do olho desprendido da atenção ao cão.

     A seguir, quando toda a atenção reuniu seus pedaços e tentou recompor o olho e olhar, não houve mais cão: ido, sumido, talvez nem havido.

     Só o casal de idosos a comerem hambúrgueres de carne de bode – os animais moídos e formatados dentro de duas fatias de pão se exibiam deliciosos num enorme cartaz promocional – ofereceu-se à sua atenção abandonada pelo cachorro. No entanto a mosca ainda preta instou-o ao retorno e por ela chegou à mesa, sem interesse algum, como alguém que chega ao ponto de ônibus e o transporte também chega cronometrado, inglório, uma dádiva idiota, pela qual ele nem agradece.

sábado, 24 de março de 2012

A Meta (2)

(...) O trabalho no jornal não o cansava tanto quanto as caras que via e tinha que ver. Na frente de uma e outra algumas vezes dissera insensatamente mais do que deveria ter dito e fora devidamente punido. A meta talvez tivesse a ver com isso, com finalmente largar o jornal e abrir a gráfica. Mas os dias sempre amanheciam com demasiada luz, e à beira-mar, suspirava...

Seus amigos, poucos na verdade, o tinham em alta conta como bom cantor e ótimo anfitrião. Algumas noites por semana, a piscina ondulando em azul sob as luzes do jardim, se reuniam em prol de nada mais que de si mesmos. Adriano e Márcia sempre estavam lá, os demais eram rotativos. Adriano “... o imperador, construiu uma cidade e deu-a de presente para Antínoo como prova do seu amor” dizia no dicionário, sonhando,  para amargamente concluir: “desse Adriano eu ganhei um isqueiro mês passado...”. Márcia “tem os cabelos mais lindos desse planeta, os olhos mais suaves e tristes e uma imprecisão nos gestos que encanta e causa riso. Se eu fosse mulher, queria ser o contrário dela. Mas eu a amo”.

Conversavam sobre livros, filmes, pessoas e coisas. Volutas não faltavam. Quando achavam por bem que houvesse o vinho, as alegrias se hipertrofiavam e as palavras soltas se multiplicavam. “Existência”, “dor” e “amor” não faltavam - pois isso foi há quinze anos, quando ainda havia muita esperança. Adriano às vezes tocava o violão e Ele cantava... por falar nisso, assim se definia Ele no Dicionário: “Sou Ele: desse jeito, simples. Meu nome não diz nada de mim – talvez diga de meu pai, ou da minha mãe, que foi quem o escolheu, mas de mim, nada. Palavras, brutamente falando, são sopros articulados. Como esperar que alguma verdade haja em vento que sai da boca e do nariz? Conheci um rapaz louro que se chamava Eduardo – um nome cujo som arde em chamas de poder e paixão na minha alma, um rapaz lindo... Mas nada havia de Eduardo em Eduardo. Talvez José, ou Nero, ou Lúcifer. (...) Já entrevistei um anão, que sustentava três filhos rolando no chão da praça no meio do povo, e que se chamava Julius César de Jesus (...) Meu nome é como o de Deus - é só pra dizer que eu sou - : um mero vocativo...”


Nessas noites de alegria Ele cantava as coisas que ouviam. Sua voz era grave e de uma potência inesperada. Uma vez, provavelmente já perto do sol nascer, falara de um cantor indiano, o qual aprendera a traduzir em música pura o trinado de pássaros, o coaxar de sapos e o grunhido de macacos. Segundo Ele, tais músicas, além de revelarem um talento muito mais que artístico, místico, tinham apelo hipnótico e quando reproduzidas levavam o público ao êxtase – geralmente formado por pessoas da área da música de vanguarda, artistas, intelectuais. “E mais, Ramadranath não apenas traduz o som desses animais em música, mas em letras...”

No meio dos risos que causou, Ele também riu, insistindo porém que falava a verdade, e que tinha, como prova, algumas das canções do cantor e intérprete indiano guardadas num disco. “Os nomes das canções são tipo ‘Clamor de meus filhos’, ‘Onde está o meu nenúfar?’, ‘Banana sapiens’, ‘A rã que ri no rio dos homens’... Se o Adriano for comigo até à sala procurar o disco...”

Márcia nesse instante baixou os olhos mas Ele não viu.

Antes de levantar e entrar em casa acompanhado do amigo, o vermelho de uma cinza se apagando no cinzeiro sobre a mesa de palha por um instante lhe entristeceu pateticamente...

Havia na parede da sala um quadro onde uma jangada encalhava na areia e um pescador de rosto oculto na sombra do chapéu dobrava a rede. Numa mesa três vasos em silêncio de barro se abriam rubros. Sentados no tapete – em cujos fios dois chineses do campo alimentavam duas eternas aves - Ele espalhou discos e palavras nuas, finalmente claras para que o outro ouvisse...

Mas no silêncio de Adriano as canções nunca foram achadas, nem caminho ou rua alguma foi aberto, muito menos uma cidade...



terça-feira, 20 de março de 2012

A Meta

Parte 1


A meta

“Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor”
Fragmentos de um evangelho apócrifo, 50,
Jorge Luis Borges



Houve um dia em que abriu os olhos. Supôs um caminho, uma meta qualquer. A dúvida porém sempre vinha. Espantava-a como a uma mosca, mas como mosca o “e se...” agourento revolteava e não se ia.

Prestou atenção na fumaça sendo tragada pelo vento que circulava da janela. Não deixava de ter sua beleza. “Maldito seja quem inventou o cigarro”, pensou. “Bendito seja...”, tinha dito no dia anterior, quando, no prosseguimento de seu “Dicionário das Coisas”, tinha escrito assim:

“Cigarro: coisa freudianamente masculina, símbolo da fraqueza, do glamour, da vontade de esquecimento. Mais uma das materializações do desejo humano que, como tudo que humano é, traz consigo tanto a morte como a vida. (...) O cigarro foi feito para ser fruído, e por tabela, malignamente nos fruir... Cigarro é comungar com o mundo por via desse ritmo existencial, antiqüíssimo, semi-divino, o da respiração. Fumar é pulsar no mundo de uma certa maneira. Nociva que seja... E encerra mistérios tais... Até hoje não há teoria científica que explique a vontade e a incerteza hipnótica das volutas azuladas que saem dos pulmões a evoluir as moléculas do fumo, do fumante e outras mais no vento. Volutas são nuvens de dentro. Seu destino tão desconhecido como o de quem as suspira, nervoso ou calmo. Considerando que a única certeza de que dispõe um mero ser humano é a morte, fumar é compartilhar com o Todo a essência de Tudo: misto indelével e angustiante de certeza e incerteza. Cigarro é portanto a certeza de morrer – da perspectiva individual, pequena, pouca - , e, a um só tempo, a incerteza do porvir – do Derredor, do Grande, do Tudo. Marilyn Monroe...”

E assim por diante. O Dicionário era uma tentativa de esquecer e lembrar ao mesmo tempo. Um passatempo. Algo como para fixar-se no papel, antes que, como as volutas, fosse tragado pelo vento e sumisse de vez.

Quanto à meta, provavelmente na próxima hora a esqueceria. Supria-o o sol daquela manhã e a vaga lembrança das flores do jardim. Cultivava-o como terapia. Cães e gatos estavam além de sua capacidade de cuidado e apego. Já as plantas são vivas, bonitas, simples e verdes. Que elas sugassem sua vida do ar, da terra e do sol lhe parecia uma magia quase assustadora, e que por isso, merecia uma certa adoração. Regava as plantas invejando-as. Nunca tentou falar com elas, era muito cético. Mas o balançar de uma folha lhe dizia tanta coisa que um dia chorou sem saber porque, tímido. Lembrava-se também de uma vez que um besouro parecido com uma abelha se deitara no néctar de uma pequena flor rosa, e de como houvera êxtase no movimento de suas patas e antenas. Na terceira semana se surpreendeu com a tessitura que uma aranha fina e astuta lograva no meio do verde e da sombra. No fim do mesmo dia um inseto jazia em conserva, como uma múmia, na teia. No centro, longe, a aranha gozava do momento.

No Dicionário figurava assim o verbete jardim: “É a paragem onde transmorfias maravilhosas acontecem no silêncio mais absurdo que pode existir: o da vida que se faz. Orquestras deveriam soar, trombetas estrondosas deveriam gritar, ou pelo menos uma flauta e um oboé deveriam acompanhar cada desabrochar de flor e luzir de folha. Alquimistas, magos, cientistas olham pro tronco que se ergue, pro sol que se deita na folha, pras cores que vemos e que não vemos, com mágoa – a de não poder, a de ter que se contentar com o mistério, sem talvez nunca achar sua luz. Quando a chuva em gota escorre na poeira seca de uma folha verde vivo fica mais fácil acreditar em Deus”.

Quanto a abrir os olhos, fechava-os com freqüência. Tinha hipersensibilidade à luz e pensava mesmo que com o tempo deixaria de sair de casa antes que apenas a lua brilhasse no céu. Uma vida de vampiro até que lhe agradaria - desse ser, que segundo ele “une o melhor da morte e da vida. Deseja ardentemente, tanto é que só o corpo não basta, tem de ter o sangue. A crer nas novelas escritas ultimamente, são belos, inteligentes, galantemente cruéis. Voar, viver séculos, ter tempo e sangue para acumular a sabedoria do tempo de viver e de morrer: só a fantasia poderia criar uma coisa tão boa...”.

(...)