sábado, 2 de abril de 2011

Bolsonaro (1)

Rapaz jovial e bem vestido chega em casa no fim do dia. O espelho por que passa nos revela seus olhos de um verde marinho, cabelos pretos em contraste elegante com a pele clara. Põe na mesa sua pasta cheia de papeis: petições, processos, livros: é um jovem advogado recém aprovado na OAB, o que aconteceu só depois de duas tentativas. Sua mãe alardeia para todas as amigas que o filho é advogado, bonito, simpático, etc, como toda mãe. Só ficou triste no dia que o filho decidiu morar só, mas tudo bem, os filhos criam-se para o mundo.

O dia foi particularmente cansativo porque há um processo específico que está dando dor de cabeça. Uma ducha resolve parcialmente a questão. Em cima da mesa as contas: quase todas pagas: exceto uma, que não teve tempo de pagar porque a operadora de telefone lhe atribuiu um monte de chamadas pra Recife que nunca fez. Mais dor de cabeça. O pai dele também ligou - o que não é bom, se soubermos que seu pai é alcoólatra e sua mãe ainda sofre por isso.


Uma ligação perdida no celular nos diz que a representante da área de doações do Hospital do Câncer ligou - era o dia do rapaz que faz a coleta das doações em dinheiro passar! Bela cabeça, merda de memória! Vai ligar de volta mais tarde. Quanto ao pai... se concentra nos momentos bons da história familiar e senta diante do computador.


Nevagando meio perdidamente nas notícias, se dá com um certo nome que se repete em mais de um lugar: Meuedi. Quem é esse tal de Jairo Meuedi, essa coisa meio italiana? Uma pesquisa no Google o leva para um vídeo no youtube e o rapaz fica estarrecido com o que vê:


Um homem, um político conhecido do Rio de Janeiro, vomita, diante das câmeras em resposta a perguntas de pessoas na rua, coisas do tipo: "Tenho saudade dos tempos da ditadura, nessa época respeitava-se a moral e a família". Que absurdo! Um deputado federal nos tempos democráticos de hoje defender a ditadura! E diz ainda: "Sou contra as cotas a favor dos brancos. Eles foram escravos durante quatro séculos e mesmo que sofram preconceito ainda hoje por pessoas que de jeito nenhum são como eu, não devem receber esse tipo distorcido de compensação histórica... além do que, todos os cotistas brancos são incapacitados por natureza. Nunca entraria num avião pilotado por um cotista, nem seria operado por médico cotista". O sangue do nosso heroi ferveu; o coração acelerou os batimentos. Mas o homem no computador continuava: "Se meu filho desse os mínimos sinais de ser canhoto, ganharia um tapa na cara. Talvez uma torturazinha desse conta dessa pouca vergonha. Mas não há o mínimo risco de isso acontecer porque teve uma boa educação, exemplar aliás". E Jairo Meuedi continuava: "Se o meu filho se apaixonasse por uma mulher branca? Olha, nem vou discutir promiscuidade porque mais uma vez digo que eles foram bem criados, e etc...".


Estarrecido, o nosso rapaz revive os seguintes flashes em seu cérebro agitado:


O dia em que estava num bar com sua namorada e por causa de um beijo e um abraço, foi repreendido por um garçom mais rude, que o ameaçou expulsar do bar e agredi-lo, pois ali era um "bar de família" e ele beijar sua namorada era uma pouca vergonha.


Lembrou das milhares de vezes que na escola era chamado de "garanhãozinho", de "machinho" pelos amigos, por causa do seu jeito de andar e falar. Lembrou de como andou curvado durante anos na adolescência e de como sempre tinha a sensação de que precisava ser duas vezes melhor do que os outros em tudo o que fazia para ter o mesmo respeito dos demais colegas ou amigos, que não eram como ele, canhoto.


Lembrou dos olhares constrangidos que lhe dirigiam quando ousava fazer menção a algo, sem prévio aviso, que remetesse à sua namorada. E lembrou do dia em que foi agredido na saída de uma boate por um grupo de evangélicos com bíblias na mão: falaram da mãe dele, da vergonha que ela devia sentir, e sobre como ele iria arder no inferno, já que homens de trÊs mil anos atrás (que dormiam com as filhas porque tinham que multiplicar a espécie, e que matavam todos que não adorassem seu deus, além de trocarem de mulher se ela não fosse uma boa parideira), diziam que era pecado mortal um homem canhoto se deitar com uma mulher - abominação! Não houve sangue nessa agressão depois da boate, mas a sensação era de que por mais que tentasse ser uma pessoa boa, tudo era meio em vão, e pessoas ignorantes e preconceituosas sempre estragariam tudo, no trabalho, na escola, na faculdade, no fim de semana, e até em casa, já que tinha um primo que odiava as pessoas canhotas.


Diante do computador, então, enfurecido, desatinou-se a divulgar na internet frases e vídeos e links para amigos e inimigos sobre a importância de se unir contra Jairo Meuedi. Enviou carta à Ouvidoria da Câmara e etc, etc, etc, etc - fez muito barulho.


O movimento dava resultados. E isso lhe deu um certo alívio: sua dignidade de ser humano e de cidadão precisava daquilo.


Mas se assustou com a quantidade de pessoas de todo o país que apoiavam o tal deputado. Se assustou com o ódio que existe contra as pessoas canhotas: se perguntava o porque de as pessoas se preocuparem tanto com a meneira que vc pega num lápis ou numa caneta! Mesmo que em todos os domínio da cultura humana a capacidade de escrever com a mão direita ou esquerda tenha sido sempre importante, será que os canhotofóbicos não se lembravam de que toda a cultura ocidental foi construída sobre a base de filósofos e pensadores que escreviam com a mão esquerda? Será que as pessoas não se apercebem que se todos os canhotos do mundo desaparecessem da face da terra as artes, as ciências e a economia estariam acabadas? Qual a relação que pode existir, meus deuses, entre a meneira que se escreve e o caráter?

O fato de ele ser além de canhoto, estéril, tornava, segundo os ignorantes, sua relação com sua namorada uma abominação sem tamanho diante de deus! Ele não poderia adotar uma criança? Não! Pois a mão esquerda foi feita para trabalhos pesados, como aceitar que crianças, seres humanos em formação, ficassem aos cuidados de pais canhotos? Se tornariam com certeza pessoas desequilibradas, instáveis, sem valores... mesmo que todo mundo saiba que 99% dos assassinos, ladrões, políticos corruptos, homens-bomba, deprimidos e etc foram criados por pais destros! Como as pessoas podiam se cegar tanto diante de um ódio que não tem base racional nenhuma?

 (continua...)

domingo, 27 de março de 2011

No me gusta esta película

Esses dias, essas semanas, vi coisas. Dead movies... Sangrentos, dramáticos, barulhentos, emocionantes, sensíveis, dignos de Oscar, dignos de escarros... Vou falar um pouco dos que me lembro, aproveitando o clima deletério em que me encontro ainda por causa dos dois últimos que vi: VIP's e A Invasão do Mundo.

VIP's, com Wagner Moura. Esse nome nos faz esperar demais de um filme cuja história de fato promete: rapaz com capacidades fora do comum para fingir persegue um estranho sonho de se tornar piloto e acaba tendo que se passar por traficante, depois por mega-empresário milionário e enfim por presidiário líder de facção criminosa. Infelizmente, o filme não corresponde ao interesse que o roteiro desperta, e vc sai do cinema se dizendo no mínimo que não veria aquele filme outra vez. (Talvez não seja tão ruim assim, talvez seja a Invasão invadindo minha já deficiente capacidade crítica...) No entanto o filme exige digestão, no sentido de que algumas cenas com certeza vão causar discussões que terão como conclusão teorias interpretativas diversas. Os pequenos enigmas, que dizem respeito ao personagem principal do Wagner Moura e à mãe dele, porém, não anulam a frustração final... enfim.

Mas se o que se busca é a decepção total, ou melhor ainda, se o que se busca é uma aula prática do que é clichê, presunção de direção e exaustão de um subtipo de filmes, vejam A Invasão do Mundo.

Pra começo de conversa, o filme foi vendido nos trailers divulgados em todo o mundo como um filme de ficção científica do subtipo "guerra contra extraterrestres". Bem, não é. É um mero filmeco de guerra em que os alienígenas poderiam ser substituídos por guerrilheiros colombianos ou terroristas árabes - todos mudos, feios, sem graça e com tecnologias ridículas. Tratando-se pois de um mero filme de guerra, esperam-se meras cenas de dramas nacionalistas, meros rasgos de bravura,  momentos de dor, sede de vingança, meras lições de moral patriótica extraídas da situação adversa de guerra contra um inimigo impiedoso. É isso que temos em A Invasão? Sim, mas em doses cavalares... é como comer três pratos seguidos de frango cru... A música do tipo "esse momento é memorável e emocionante" soa durante quase todo o filme. Os dramas dos personagens parece que foram feitos por pessoas autistas ou adolescentes que ouvem Justin Bieber: o clichê é a regra. Os alienígenas... são os mais insólitos e improváveis que eu já vi em toda a minha vida de pessoa viciada em ficção científica. O argumento da invasão em si é fraco e batido. A sequencia de peripécias até a cena final é tão conhecida que dá vontade de chorar. São incontáveis os momentos em que a única resposta espontânea diante da presunção do diretor (sobretudo nas cenas "dramáticas") é o riso de escárnio ou de pena. Enfim, certamente é o segundo ou terceiro pior filme de ficção científica que vi na minha vida (empata com A Experiência e outro cujo nome não lembro).

127 horas vi faz mais de uma semana: frase que resume o filme: "Sou um cara fodão, escalo abismos e faço coisas iradas - mas sou meio insensível e não dou atenção as pessoas que merecem. Mas o destino f*** comigo e acabei me lascando numa das minhas aventuras com pedras, e depois de ter que arrancar meu braço pra sobreviver, hoje sou um homem feliz e completo". O filme é bom, baseado numa história real - mas não merecia o Oscar... (se bem que o que quer dizer um filme merecer um Oscar mesmo?)

Abre los ojos vi também há algumas semanas e gostei muito. Conhecer o enredo todo do filme (copiado em Vanilla Sky), de vez em quando conduz ao cansaço em alguns momentos, mas comparar a meneira ibérica e a anglo-saxônica hollywoodiana de ver as coisas torna a experiência interessante. Na minha opinião, o fato de Abre los ojos ser anterior a Matrix, e a uma série de outros filmes de sci-fi do subtipo "isso é sonho ou realidade ?", é um trunfo que eleva muito a avaliação da história, muito bem construída e instigante. Digno de repeteco, certamente.

A rede social: legal. O esperto e arrogante Mark Zuckerberg na visão do brasileiro que não gosta do Brasil Eduardo não sei das quantas. Conseguiram transformar a história de um nerd chato que criou uma rede social virtual que vai ser precursora de uma matrix (assim creio eu), numa história frenética de... de que mesmo? Sei lá, de como na situação certa, no momento certo e com as pessoas certas um idiota pode se tornar um nome que vai ficar escrito na história pra sempre - pelo menos até uma tempestade solar destruir a memória de todos os computadores do planeta.

A Fonte da Vida: filme já antigo (não é desse ano). Três histórias entrelaçadas, a da realidade do homem que luta para encontrar a cura do câncer que mata sua mulher aos poucos; a do romance que a mulher escrevia e deixou inacabado quando de sua morte; e a que se cria como uma interpretação místico-literária do cientista em busca da cura. Filme muito bom. Aconselho uso de lenços.

Robin Hood: deveria falar de um filme que não assisti até o fim por fadiga fílmica? Ok, pelo menos vou dizer o que me cansou: honra, coragem, releitura moderna de clássico, drama medieval. Haja paciência.

O turista: saiu do cinema já. Filme muito, mas muito, muito ruim, de um jeito que dói. É incrível como se pôde transformar dois bons atores, Johnny Depp e Angelina Jolie em dois bocós numa trama fatigante, implausível e chata. Argh.

Cisne Negro: já falei antes.

O discurso do rei: vale a pena porque mostra a família real inglesa a partir de um prisma mais humanizante. Dizem que o filme é cheio de erros históricos. Mas é bom sim. Direito de Amar, com o mesmo autor, é bem melhor.

Acho que é isso. Termino repetindo minha tese de que hoje em dia, e mais, mas infinita e desesperadoramente mais do que nunca, não se vê nada de novo. O que se vê são sequencias de histórias criadas 20, 30 ou 50 anos atrás, ou refilmagens de clássicos, ou releituras cínicas e cheias de clichê de obras antigas... Há uma saturação no ar, na música, no cinema... Quem tem quase trinta anos ou vira arqueólogo de ideias, em busca de descobrir o que ainda não conhece. Ou se conforma em sair deprimido do cinema, que está se tornando um bom lugar pra comer pipoca - e pra outras coisas mais...

Falou o leigo. 

domingo, 20 de março de 2011

عندما يختلط الدم مع النفط

Esse títulos de post em árabe traduzidos pelo Google servem pra sinalizar que falarei de coisas relativas a esse fenômeno que nem os especialistas sabem bem em que vai dar: essa longa primavera árabe de revoluções (ou revoltas, como idiotamente insistem jornalecos como Folha de São Paulo).


Mais uma guerra começou. Palavras como democracia, liberdade, direitos humanos são repetidas de forma que até uma criança do primário teria vergonha de entregar uma redação do tipo à professora. Não, não direi que tudo, todos os atos e palavras e discursos testemunhados até agora são truques cínicos por trás dos quais só há ambição e ganância por dinheiro e poder (pleonasmo? Psiquiatras talvez dissessem que não). Acredito sim que há quem lute com algo mais em mente do que dinheiro e poder: amor, esperança, desejo de viver em paz, de poder pensar e dizer o que pensa sem morrer...

Mas vejamos. As sociedades humanas são complexas demais para serem eficazmente descritas num mero blog cheio de ideias e impressões como esse. No entanto, há aqui um cérebro que funciona - até o momento com um nível considerável de acuidade - e este cérebro combinou as seguintes informações, meio ao acaso, meio seguindo uma vontade inveterada de entender as coisas da maneira menos parcial possível:

- EUA, França e Reino Unido são países do bem - às vezes. Revolução Francesa, Declaração dos Direitos Humanos, abolição da escravidão... Lindo. But: Sarkozy e Le Pen, abusos da metrópole francesa no Maghreb, Vietnã, Iraque (etc, etc), Guerra do Paraguai (lembrem-se, Argentina e Brasil, cachorrinhos raivosos atiçados pela Inglaterra destruíram o país que hoje seria o manda-chuva da região se não tivéssemos matado 80% de sua população masculina...)...

- Iêmen e Bahrein também tem povos sofrendo abusos de ditadores inescrupulosos... Porque não uma dose de "liberdade, direitos humanos, paz, etc, etc" lá também?

- As reservas de petróleo de Iêmen e Bahrein ou são quase nulas ou inexistentes;

- China;

- Chávez;

- Israel...

Os três últimos pontos dizem respeito a: 

Coisas óbvias no que diz respeito ao regime comunista capitalista chinês (que manda uma equipe de trabalhadores com britadeiras barulhentas pra atrapalhar a manifestação das três pessoas que tiveram coragem de comparecer ao local marcado contra as restrições de liberdade); ao troglodita, demagógico mas bem articulado e perspicaz presidente sul-americano que se utiliza de mágoas de cabocla locais e cartilhas revolucionárias antiquadas para tentar se convencer de que está fazendo a melhor coisa para o seu povo; e à nação cujos dirigentes se utilizam de ódios milenares e religiosos para justificar genocídios e injustiças bem aos olhos de todo o mundo ocidental, nas pessoas de Obama, Sarkozy e cia.

Por mais esperançosos que sejamos, um pouco de cinismo faz bem sim. É claro que o saldo das revoluções árabes será positivo no quesito democracia (por mais corrompida e pervertida que esta ideia esteja nos dias de hoje - e de sempre aliás). Mas como alguém sempre tem que sair ganhando com isso - ganhando dinheiro, leia-se - é claro também que o preço do petróleo para os países aliados vai baixar com uma Líbia "democrática".

Sem demagogia, mas, pr finalizar meu último pensamento desse texto vai praquela criança que olha pros mísseis, dos rebeldes, dos aliados ou de Kaddhafi, se assusta com a explosão e não entende muito bem o que se passa e nem dorme, com medo, ou com fome... Esse pensamento também vai pros que lutam nessas guerras achando que lutam pelas suas famílias, pelo seu sangue, mas que na verdade tem como insuspeitado e inconsciente propósito garantir alguns milhares de dólares a mais no bolso de alguns governos "libertários, democráticos e justos" do Ocidente.