domingo, 7 de agosto de 2011

Bonjour


Há um cinza na curva das cores,
Um turvo no brilho do quente
Um pingo de sal no pó de asfalto...

O fio de vida oblíquo que do dentro ao fora tende
Treme em notas chinesas, melodia do oeste,
Cadência incorreta em sussurro islandês.

Não que seja sempre assim o bom-dia.
É que o verbo de ser preso entre linhas
Cuja autoria sempre oculta, e muda,
De vez em quando,
De vez em quando,
Não amanhece,
Não amanhece,
E bonjour
É só bonjour mesmo.

sábado, 30 de julho de 2011

Novo Renascimento ou Idade Média 2.0?

Não gosto de escrever sobre política porque sempre tenho a impressão (aliás, essa impressão é permanente, mas nesse caso é mais forte) de estar ousando demais... Mas que seja, isso aqui não é minha dissertação de mestrado mesmo.

Breivik nesses últimos 10 dias se transformou quase num palavrão - assim como aquelas palavras que nos vêm à cabeça quando lembramos das 68 pessoas mortas em Oslo. O sorriso sereno do rapaz, a delirante mão firme com que ele levou a cabo quase todos os planos dele nos lembram de episódios da história que tentamos esquecer cada um à sua maneira: ou fazendo alguma coisa ou não fazendo nada: 11 de setembro, Hitler, assentamento judeu na Palestina...

Breivik, no seu "diário de bordo" da morte e da loucura (e aqui frisa-se que a loucura em geral é a perversão ou o exagero de algo pertencente à "realidade"... o que nesse caso preciso de intolerância, é mais perturbador ainda) o norueguês fala de "Eurábia" - o que nos remete de cara a algo como uma combinação entre Arábia e Europa...

Pois bem, uma pesquisa na internet nos leva à Wikipédia, e lá fica-se sabendo que o conceito de Eurábia existe desde o começo dos anos 2000. Eu gosto de teorias da conspiração - mas nos filmes! Essa é daquelas que merecem mais que um "Aí dentro": um "Socorro, pega o doido!". Mas como toda teoria da conspiração, tem raízes em fatos, passando por suposições, por projeções exageradas e por fim, um belo toque de ucronia e loucura mesmo. Leiam o artigo (a versão em francês é mais completa) - no fim ficamos sabendo que muitas pessoas (e não apenas loucos como Breivik) acreditam que de fato existe um tipo de acordo conspiratório entre líderes da Europa e do mundo árabe que pretende pôr em prática um processo irreversível (que já teria começado aliás) de islamização do continente, o que incluiria flexibilização das leis de imigração, negação das raízes cristãs da Europa e o denegrimento da imagem de Israel em solo europeu... Essa teoria, que como único dado "correto" apresenta o crescimento demográfico superior das comunidades islâmicas (que está em queda, diga-se de passagem, antes que todos gritem), indica que até o final do século XXI, qualquer mulher que fosse visitar Paris ou Londres teria que usar burca ou véu e se habituar a ouvir as cinco orações muçulmanas soarem na Notredame, que teria se transformado numa grande mesquita...

Quem lê ficção científica como eu, já viu essa história várias vezes: parte-se de um elemento sociológico real, exagera-se tal elemento, combina-se um pouco de drama e recortes de outros esquemas históricos, e finalemente obtém-se uma realidade alternativa convincente, se apregoada no tom certo, pelas pessoas certas, no contexto emocional certo... O contexto hoje é o mesmo do pós-guerra do século XX: medo, intolerância, ignorância... - os "possíveis" dominadores da Europa é que eram outros: os judeus. O anti-semitismo, apregoado nas ocasiões corretas, por pessoas inteligentes, a um povo enfraquecido levou ao Holocausto e à perseguição geral dos judeus. O mesmo acontece hoje com os muçulmanos. Quando se vê um Le Pen da vida que diz achar a ingenuidade do povo norueguês diante da imigração muculmana mais grave do que a matança promovida por Breivik, um sinal mais que vermelho se acende dentro das pessoas que querem nada menos do que paz...

Junte a isso Bolsonaro, Silas Malafaia, Al Qaeda, LulzSec e etc, vc começa a ter certeza de que a ideia daquele fundamentalista da esquina passar a ser um defensor de sistemas anti-islâmicos, anti-homossexuais, anti-qualquer coisa que seja considerada anti-deus-como-achamos-que-ele-é, não é um exagero de hipocondríacos sociais - é questão de tempo, se não se fizer alguma coisa...

Mas do fundo do meu coração de cidadão relativamente pacato, ainda prefiro pensar de que perto dos meus trinta estou vivendo a revolução da informação e da comunicação, e que um dia esses medos não farão mais sentido... 


(Um Hitler de novo não, s'il vous plaît)...

sexta-feira, 29 de julho de 2011

South Park


South America, south hemisphere, South Park... E é bem debaixo mesmo que a coisa começa.

Dos Smurfs, passando por Cavalo de Fogo, He-Man, Ursinhos Carinhosos, Capitão Planeta, e enfim chegando a South Park, é óbvio que há um longo caminho. Não premio este último como objetivo de um percurso intelectual qualquer - apenas indico mais uma via possível nesse mundo cheio de portas largas do entretenimento fácil e meramente recarregador de baterias.

Nem lembro a primeira a vez que vi um episódio, mas lembro que de primeira não cheguei a me apaixonar pela escatologia animada que jogava nos meus peitos sangue, palavrões e críticas muito mais que pesadas a tudo e a todos - sobretudo a EUA, religião e moral... No entanto o amor que se seguiu era inevitável.

Como não gargalhar diante de personagens que visualmente são de uma simplicidade iconoclasta e expressões reduzidas ao básico mas que incontrolavelmente causam o riso por sua eloquência mais que cômica? Iconoclastia, aliás, pode ser a palavra que mais venha à cabeça depois de assistir analiticamente um ou dois episódios dessa série americana. No terceiro ou no quarto, se vc não for fundamentalista cristão ou muçulmano, nem um hipócrita de segundo ou terceiro nível, mas sobretudo, não for um autoanalisófobo, vc percebe que há algo lá no fundo, há um código sério que diz alguma coisa de bom e de positivo, escondido numa nuvem imensa de riso de escárnio, de cenas absurdas, de sarcasmo ácido e politicamente incorreto e até ofensivo.

Cada episódio é uma pérola de "olhe-se no espelho e veja que o mundo não é lindo como vc pensa, caro homem branco, ocidental, cristão e feliz". Como nesse, da décima primeira temporada, em que Cartman, Stan e Kyle descobrem, durante a Páscoa que São Pedro na verdade é um coelho, e que Jesus não ousaria colocar nas mãos de um homem apenas o destino de uma igreja ou de uma religião:

- Mas por que Jesus ia querer que
um coelho comandasse sua igreja?

- Porque Jesus sabia que nenhum homem
poderia falar por todos em uma religião.

Nesse mesmo episódio, por acaso, dirigentes da Igreja Católica, para impedir que tal segredo seja divulgado aos quatro ventos, ordenam a morte de Jesus Cristo, que do nada tinha ressuscitado para salvar os herois da série.

O episódio que mostra um Obama mancomunado com McCain, cujo objetivo era permitir a vitória do primeiro presidente negro dos EUA para que esse pudesse roubar uma joia caríssima chamada "esperança", à qual apenas o presidente tem acesso, também diz muito sobre o lado podre da política. 

Em outra situação, depois que Kyle se vê obrigado por seus amigos e conhecidos a criar seu perfil no Facebook, o stress de manter e administrar os contatos na rede e o equilíbrio superficial de suas relações com os amigos de verdade o cansa, e ele decide abandonar o Facebook. Mas sua conta tomou vida própria, e o impede de cometer seu facebookcídio, exceto se o garoto entrar no mundo digital no melhor estilo Tron e lutar contra os outros "profiles"...

Claro que não vou continuar a pagar o mico de ficar contando o enredo dos episódios dessa série que mais que pensar, faz pensar com muito, mas muito humor. 

Depois de um certo tempo de piadas sem graça na arte e na vida, a dose tem que ser pesada pra fazer vc abrir uma gargalhada gostosa e incontrolável, do tipo epilética, daquelas que se abriam com os amigos no meio de uma aula da faculdade, vc se passando por idiota... 

Para pessoas com senso crítico, habituadas a House ou Simpsons, conhecedores parciais de Onfray ou Voltaire, porque não, aconselho uma visita a South Park. Para os que querem ser ishpertos e legais, CQC basta.

A mosca já tem... a b*sta também.