quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Shortbus

Eu não vou falar muito desse filme, usando como desculpa o que não poucas pessoas naqueles momentos de muito falatório pré-cópula fazem pra dissimular calma e sabedoria, quando na verdade urgem ardentemente por agir: "Há certas coisas que não devem ser ditas e sim feitas".

No entanto pra não cairmos completamente no vazio, digamos que ao ver Shortbus é inevitável lembrar de Woodstock, e também um pouco do Jardim dae Delícias, de Hyeronimus Bosch. Mas 2006 não é 1960, e então a lembrança passa rápido e voltamos pro nosso mundo cheio de neuras, depressão, moralismo, frustração; os freudistas de plantão meteriam a palavra "sexual" depois de cada uma desses termos (Freudistas são exagerados e criativos, assim como o líder da seita), com um prazer infantil... 

Fiquemos sabendo logo que o filme não é para menores, mas ajuda os maiores "permeáveis" (nas palavras de um dos personagens) a atingirem talvez uma nova visão sobre as manifestações comportamentais de diversos tipos que chamamos de sexo...

Vejam. E espero que seja bom pra vcs como foi pra mim.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

As bichas que gongavam as raxas

Acho que não é porque as feministas aparentemente adoram a obra de Stieg Larsson que a série de três (ou quatro) livros deve ser chamada de feminista.

A figura de Lisbeth Salander, a heroína do escritor sueco, é desafiadora, tanto pro autor como para o leitor. Os anti-herois pululam há muito tempo na literatura, e no cinema já têm virado um clichê (jovem rapaz fracote que vira super-herói musculoso, etc). Em Os Homens que não amavam as mulheres, não se pode dizer que a heroína evolui, no sentido de que se torna outra pessoa irreconhecível em relação ao começo. Ao contrário, a dejustada e misteriosa Lisbeth se vê desde o começo de tudo diante de fantasmas da sua infância e adolescência que ela tem que enfrentar sem alternativa possível. E faz isso afirmando-se enquanto mulher certa do que quer e do que faz, numa saga tão original quanto ela mesma. Não exatamente bonita, amante das roupas pretas, sexualidade tateante e afeita ao silêncio ou aos monossílabos, a jovem de vinte e poucos anos incorpora em si uma série de traumas ou problemas que têm tudo a ver com os desajustes familiares das sociedades ocidentais atuais – obviamente num nível catarticamente exagerado.

O título em português do primeiro livro, transformado em filme por Hollywood recentemente, segue o original sueco Män som hatar kvinnor, e, talvez diferentemente do original, esconda mais da incrível e apaixonante história de Lisbeth do que a torne atraente... O título inglês, que em português seria A garota com tatuagem de dragão é mais sensata. Os homens que não amavam as mulheres jogado de cara nos nossos ouvidos, nos contextos de discussões pops atuais, lembra algo mais próximo daquilo que denota o título desse post do que outra coisa. Mas pelo escrito até agora, fica mais ou menos claro que a sugestão imediata não tem nada a ver com a riqueza da história.

Entre os “homens que não amavam as mulheres” estão homens violentos que se divertem agredindo filhas e esposas, estão loucos nazistas misóginos, os exploradores sexuais, os violadores... Lisbeth Salander é a que se ergue da bagunça que é sua vida - exatamente por ter sido vítima do não-amor dos homens - para lutar contra a falocracia generalizada e o reinado de violência adjunto.

Cenas duras de violência, sagacidade, humor e amor não faltam. O ritmo é de um drama investigativo e de um thriller de ação. Impossível não lembrar do esquema Tarantino ao nos vermos torcendo pelas vinganças perpetradas por Lisbeth – e muito bem feitas.

Não digo mais sobre o filme. Ainda sobre o título, a sala de cinema com menos da metade dos lugares deve ter a ver com isso. Um filme tão bom quanto é Millenium, sugerido pelo primeiro livro da série, merece aplausos.

E claro que estamos falando de Hollywood. Europa é e sempre será outra coisa.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Avatar 2D em P&B mudo

Não passamos por um século de cinema incólumes. Nem o próprio cinema.

Em The Artist todas as aparentes e propositais lacunas são preenchidas pelo muito e pelo excesso de cores, sons, ângulos e histórias que engolimos ou nos engoliram na sala de cinema ao longo de tantas décadas e sobretudo das últimas. (HItchcock, Tarantino, Almodóvar, Cameron, Spielberg...) O olhar reflexivo do filme mostra primeira grande ruptura da sétima arte em sua história: o surgimento do cinema falado. Se por trás dos nossos óculos 3D mal conseguimos imaginar o que era se tacar numa sala  pra assistir filmes sem cores e sem som nenhum, The Artist parece que nos dá uma ideia da revolução que foi ouvir pela primeira vez o galã falar e a mocinha claramente sorrir em vez de terem seus lábios se movendo mudos, transcritos em letras trêmulas na tela.

E a ideia de 1929 parecer com 2011, 2008 ou 2012 se vê repetida no filme: um crash na bolsa, um cinema que morre pra outro que nasce, artistas que se veem obrigados a se adaptar a um novo modo de fazer e viver na tela grande.

Sem abandonar o hábito de ceder ao clichê: mesmo sem ser dita uma palavra, o filme é eloquente de um modo inesperado (indicações ao Oscar não foram à toa) - destaque para o sonoro "bang!" do final...

Eu não sei, mas além de interessante, acho que seria sintomático ver o Oscar de melhor filme sair para um filme mudo em preto e branco, não muito tempo depois de haver-se laureado incansável e mercadologicamente um monstro de duas horas e meia com suas cores e movimentos estonteantes em 3D... Sintomas de doença ou de cura?

Vamos fazer uma aposta que o cinema de 2030 vai ser ininteligível às nossas cabecinhas confusas de início de século XXI?
Vejam The Artist.