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domingo, 10 de março de 2013

As Boas Mulheres da China ou Porque amo Jorge Luis Borges

Porque eu falo tanto de Jorge Luis Borges? Porque penso nele como um sacerdote da literatura - uma pessoa que, deliberadamente ou não, abdicou da vida plena como ser humano em prol de uma relação quase religiosa com os livros. Dono de um volume de leituras absurdo e variadíssimo, e de uma sabedoria toda sui-generis, os exercícios de combinação e recombinação e criatividade resultaram em uma escrita que eu consigo imaginar poucas palavras mais eloquentes do que "mágica" para classificá-la...

No meio de sua filosofia, que se encontra dispersa nos contos,  palestras e poemas que ele escreveu, uma de que gosto muito, e que achei assombrosa - assim como tanta coisa que ele nos deu como literatura - é a ideia de que espaço e tempo não são de forma alguma absolutos e se conformam de acordo com a visão ou percepção individual de cada um. Meus limitados conhecimentos de filosofia me sugerem que ele não foi o primeiro a dizer isso, mas penso que vi aí muito mais do que o solipsismo básico identificável... Talvez a metáfora que ele tenha utilizado de forma tão educativa tenha marcado essa ideia, e é a seguinte: a de que tempo e espaço são como a luz de uma vela que cada ser humano carrega ao longo da vida. Se ainda não estiver claro, pensem um pouco por si mesmos nessa história de tempo e espaço, e também na metáfora e vejam como é ela assustadoramente poética e bonita - digo assustadoramente porque ela implica no ato solitário de existir nesse mundo... ao mesmo tempo que desenha de uma forma linda a figura de duas ou mais pessoas que se encontram, juntando a luz de suas "velas existenciais", compartilhando suas noções de tempo e de espaço como dois vaga-lumes se encontrando no meio da escuridão, interagindo e produzindo um mundo em comum...

Não sei se a poética dessa metáfora anula sua carga de solidão, mas o que me fez pensar nela (não sei se da forma mais logicamente correta) foi a leitura de um dos mais enriquecedores livros que já li na minha vida: "As boas mulheres da China". O título soa simples e simpático como as expressões do rosto da autora, Xinran Xue, uma jornalista chinesa que, decidindo conhecer mais sobre como vivem e quem são as mulheres de seu país, produziu uma das obras mais informativas e emocionantes sobre a cultura do Império do Meio, particularmente a parte concernente às mulheres.

A partir de histórias que ouviu ou leu em seu programa de rádio ao longo de anos, e ainda por meio de entrevistas espontâneas ou casuais com mulheres dos tipos, lugares e classes sociais mais diferentes possíveis, Xinran nos presenteia com um um riquíssimo retrato da situação da mulher na China atual. Estamos falando de personalidades que, a depender da região e do estrato social a que pertencem, vivem como há 800 anos, nos tempos do império, ou como há dez, como na década de 90 ou 2000 em pleno ocidente. Há muita lágrima e muito sangue das mulheres que tiveram seu amor e sua esperança esmagadas pelas engrenagens de um sistema político ditatorial inclemente. Há histórias de tragédias naturais seguidas de tragédias humanitárias, onde as mulheres são as que inegavelmente pagam o maior preço pelo fato de serem o que são: o gênero considerado "frágil" - nunca esse adjetivo me soou mais absurdo do que ao longo da leitura de As Boas Mulheres da China. Algumas histórias - todas reais - têm o mesmo teor moral e trágico de um conto de fadas ou de uma fábula; a mais de uma, a única reação são as lágrimas e em outra, soluços. Não quero fazer aqui a exaltação da literatura de lamúria - não é isso que a autora pretende. Seu trabalho de pesquisa pode se considerar de caráter documental; seu olhar de mulher ávida de saber o que se passa com suas congêneres era inevitável, e seria falso ou inadequado se ela tentasse aplicar-lhe outra perspectiva que não a sua...

A China é um planeta em si praticamente. E uma parte dessa planeta vive num eclipse quase permanente - é aí que vivem milhões de mulheres que existem numa ignorância e numa pobreza extremas, algumas; e numa prisão intelectual, numa tortura afetiva e psicológica desumanas e insustentáveis, outras. Mulheres que, por exemplo, perdidas numa planície num deserto no meio do país, só recebem dos homens uma refeição de papa rala de farinha e água - mulheres que são tratadas pelos homens como moeda de trocas entre clãs... Outras que têm a sexualidade violada das maneiras mais cruéis possíveis, em seu corpo e em sua desinformação... Poderia listar aqui, como exemplos das histórias, infinitos trechos cheios de pesar e de dor, mas aconselho simplesmente a leitura dessa obra, que no esquema da metáfora acima, funciona como uma fogueira ao redor da qual cada um de nós, ignorante muitas vezes do sofrimento alheio, ou às vezes apenas vagamente conscientes do quanto de infelicidade assombra a vida de pessoas por aí (vivendo numa escuridão tal que fazem nossos problemas individuais parecerem desafios de gincana perfeitamente vencíveis), podemos contribuir com sua luz existencial individual...

Sob esse eclipse chinês, muito além das lágrimas que como humanos derrubamos por essas mulheres, o fato de saber passa a ser uma chama, uma coisa que pode resultar em outra, nem que seja a autotransformação, ou o maior respeito pela condição do vizinho, ou a sensibilização em relação às pessoas que aqui, há dezenas de quilômetros, sofrem com a seca ou com a fome, ou com a dor de verem suas filhas e mães assassinadas sem punição...

A dor existe. Transformar a consciência da existência dessa dor em algo de útil e não apenas poéticamente choroso depende do espírito de cada um. A compaixão pode servir, como Nietzsche indicou, como um catalisador para uma epidemia de dor - em que todos choram juntos e nada é feito. Xinran não apresenta as histórias dessas boas mulheres da China com esse intuito. Entre seus objetivos, certamente há a velha, mas importantíssima ideia de lembrar que, mesmo em momentos onde tudo, a nível nacional ou individual, aparentemente vai bem, sempre há algo a ser feito com respeito a algo ou alguém, e que isso não pode ser esquecido, com o risco de se cometerem injustiças dignas de Hitler, pelo simples fato de "não sabermos"...

Xinran hoje é professora universitária em Londres e escreve livros em que dá continuidade a seu trabalho de informação sobre esse planeta China, que a maioria esmagadora dos chamados ocidentais nem de perto conhecem. Em suas falas, dá mostra de uma polidez e de uma delicadeza que vão muito bem com a perspicácia de seu pensamento e a agudez de espírito: é uma mulher inteligente e profundamente marcada pelas histórias que ouviu e viveu - já que ela também foi vítima dos episódios mais desumanos da Revolução Cultural comunista da China. Aqui está uma entrevista dela no programa Roda Viva - que não é das melhores, já que tem-se a nítida impressão de quem nem todos os presentes no debate leram o livro...

Não sei pra quantos das pessoas que ocasionalmente leem essas coisas que escreveo o livro é um dos objetos mais importantes já inventados pelo ser humano, mas considero que aconselhar um livro transformador, apresentar alguém a um grande autor que marcou a sua vida é um dos maiores presentes que se pode dar a alguém. Pois eis aqui um presente - que recebi da minha amiga Joana d'Arc, a quem agradeço demais.

Mas ok, esse tom superlativo meio que cansa no final. Leiam o livro.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Stendhal

Dizer que Stendhal não supunha que sua vida sobreviveria em sua obra por séculos seria um clichê de modéstia projetada não aplicável ao caso. A inteligência, a ambição, a circunspecção, o sentido de estratégia, a paixão de Julien Sorel - seu personagem mais célebre - apontam para qualidades biográficas do autor que levam tranquilamente seus leitores a dizerem sim ao prazer e à certeza de ele saber quem é e gozar disso infinitamente...

230 anos depois do dia de seu nascimento, lhe agradeço (como se agradece a um amigo-irmão) por ter sofrido, rido, chorado, vencido e perdido comigo ao longo de dias, semanas e meses em que vivi e revivi a vida de Julien Sorel; agradeço pela jornada ambiciosa e ingênua na floresta de virtudes, vícios, pecados, glórias, difamações, inveja, religião da aristocracia da França do século XIX...

Agradeço por ter me ensinado elementos do óbvio sobre seres humanos, incluindo mentira, amor, paixão, ambição, orgulho, devoção - tudo devidamente confirmado, rechaçado e modulado posteriormente pela Vida fora dos livros...

Agradeço por ter feito companhia ao lado do meu reflexo pálido no espelho, coisa que pra um adolescente ansioso e um tanto cego é muita coisa.

E enfim, no sentido místico-borgiano, agradeço por ter me permitido ser Julien Vinícius Sorel Bezerra por momentos de completude infinitos e inesquecíveis.




terça-feira, 28 de agosto de 2012

O Jardim

O jardim


Sou como todo mundo, quando nasci não sabia o que era. No início do começo, minha existência se constituía de um ponto de vida. Vida ínfima. Sem saber de mim o meu derredor todo é que se fazia, a flutuar eu no limiar do pensamento. Tudo escuro, morno, úmido. Aí então, a partir de um momento primordial das coisas e de mim, viver e existir foram se compondo e comutando, em etapas, em cascas. Talvez com assombro eu tenha assistido água e pó me virarem na simetria do plano invisível que governa a terra - mas se o fiz, esqueci. Lembro da música, da voz de trovão, da de vento em flauta ou ira, e também do silêncio mais puro que já houve. Intempéries, emoções da hora, indo a vida e vindo.

Lembro da gênese da minha ousada ingenuidade, que tudo queria, na arrogância de achar que podia mais, apenas por ter podido uma vez, sem querer, viver. Ao longo dos dias e das noites sentia que escalava patamares mais sutis e complexos de possibilidades. Apêndices formavam-se segundo intrincada arquitetura antiga e nova ao mesmo tempo, nunca até hoje superada. Em nada notei mãos de artista, nada da marca individual de uma vontade clara – o que não é juízo, apenas leve constatação. Sei é que entre o mundo e eu há como que um sonho, e o que aqui digo é seu enredo, sem interesse. Pois falo comigo no tom de um rio que a si mesmo murmura águas. E são inexatas as coisas. Por exemplo, o mistério é eu não saber de onde vim: no bico de um pássaro, de uma semente de onde, de origem nebulosa, uma questão sem resposta... Os pássaros voam muito e vão longe, e por não falar a sua língua, fico quieto ignorando rotas e histórias. As flores belamente não se importam, em exército as abelhas de cor em cor trabalham e até à morte dançam...

Desde pequeno sinto e sigo o chamado do alto, modulado sempre pela tenacidade da voz da terra. Cada dia é uma luta, num banho diário de luz, ao sopro do vento morno. A minha fidelíssima sombra, ao chegar do fim do dia, cresce sem tamanho até se fundir com a geral da noite, em infinitos matizes de escuros e sonhos. O dia seguinte vem depois na roda dos ciclos com meu devido quinhão de sombra e luz novamente.

Meus atributos são largos e todos, porque não tenho nenhum. Não sinto a função, se é que tenho uma, por isso me interesso somente no nível que cada momento pede, o qual quase sempre é baixo, ou zero. A solidão me ensina tanto quanto a companhia daqueles com quem casualmente vivo. O silêncio da tarde tórrida me agrada e eu penso muito, muito, muito, suspirando. À noite eu respiro.

Antes, à tardinha, vem meu melhor amigo, com quem falo menos que o que queria, pois nos separa a barreira da linguagem. É uma amizade boa e agradável, no entanto. Na manhã em que o conheci logo vi como era inquieto, agitado, um tanto medroso. Dava a sua voz ao dia o dia inteiro, ávido, rápido. Era como um mundo que fosse acabar no dia seguinte. Sempre o admirei pela leveza e facilidade sua de viver. Ele mesmo, em alguns gestos de asa e cabeça, demonstrava mesmo seu orgulho e um tipo sem peso de altivez por suas habilidades próprias.

Porém logo vi também que poder ele voar pelo jardim e pela mata, solto no vento como nunca poderia eu ser, tinha seu preço: parece que o conheci ontem, mas segundo o que ele diz, em sua memória a minha figura alta e forte, verde, marrom, esteve sempre presente, ou aí figura desde que se entende por pássaro. Surpreso, sondando as histórias de minhas cascas e folhagens, de fato encontro na lembrança, muitas vidas e épocas esparsas; ao longo do tapete da passagem dos anos, milhões de abelhas, bilhões de formigas, besouros, milhares de pássaros e infinitos pardais... e entre estes descubro talvez esse que se aninhou em mim e sobre mim dormita...

Mas o que me importa o que eu não sei? O que me importa se na duração de um dia mil criaturas tristes e felizes riem e choram ao meu pé, na minha sombra? Que valor maior do que a qualidade de cristal candente dessa luz, têm seus sons sem sentido? Em minha volta, como o pardal nos meus braços, os homens montam seus ninhos de pedra, e os destroem, e sem saber como é a vida, vivem-na, assim, sem saber que não sabem...

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domingo, 1 de abril de 2012

A mesma língua

A mesma língua


     Queimou-me o café a língua, pensou, feliz sobre a dor esquecida pelo deslizar articulado da frase.

     Queimei a língua, pensava sua boca, cálido vão de vermelho oculto que se mostrava nas palavras sopradas gratuitas sobre a mesa.

     Esta era um círculo de conversas dentro de outro círculo de conversas, pedidos e ordens.

     Ele com a língua ardente. Sentiu-a como se se desmanchasse um pouco. Certificou-se dessa ilusão contraindo o músculo em auto-análise e depois comunicando a todos que: queimara a língua.

     Um silêncio de diálogos não interrompidos e uma gargalhada estrangeira e inconsciente de queimaduras vieram numa resposta mural que ele, depois de um instante de espanto desprezado, viu finalmente que era rica de permissões e concessões. Que se alegrasse pois, dessa concessão de fazer e estar: estava só, mudo, ignorado por enquanto, livre para fazer-se em pira todo o seu ser a partir de sua boca, se quisesse.

     Pois muito bem, engoliu com uma saliva mais quente com gosto de café a sua liberdade dentro do círculo e ordenou sucinto à sua boca que comesse. Ela, que nem era dessas coisas de devorar ávida o mundo, obedeceu, e demais, como ele queria de fato, e o fez como se boca de selvagem felino fosse e não de primata doméstico, e visse no pão com queijo e presunto um pescoço liso e suculento de gazela.

     Mastigou plenamente diante de uma câmera, muito intrusa, ali escondida, e mal, a supervisionar a segurança do repasto geral.

     Mastigou como uma vaca automática. Se um de seus amigos porventura descesse de suas gargalhadas e o mirasse com súbita esperança, certamente se surpreenderia sem saber se ele era como todos e engolia de vez em quando o bolo da boca ou se tudo era uma só mastigação ininterrupta e que sua boca era bruta e só enviava tudo ao estômago de uma vez, não em prestações.

     De fato, uma vez se dignara a contar, e sua mandíbula, soube, triturava o alimento quarenta vezes antes de dispensar a sofrida comida esbagaçada a seu destino de dissolução e transmorfia.

     Às vezes cansava de mastigar. Ficava exausto. Mas como gozasse da liberdade de não existir naqueles instantes de alheamento do grupo, com apenas metade do número assinalado, deixou que dum escuro quente ao outro, ácido, deslizasse o que havia sido parte de um singelo pão com queijo e presunto, e de uma gazela africana.

     Viu-se então esvaziado de sentido, terminado o processo de mastigação sem cansaço. Com nojo, pensou mesmo em camelos e vacas, e cogitou em que se pudesse, convocaria o ido conteúdo a outras vinte vergastadas. Confundiu-o um pouco a dúvida sobre a capacidade de ruminar do camelo...

     Mas, sim, esvaziado ficou, porém não tanto tempo. Apalpou a boca com a língua, e enquanto buscava não se sabe o que nos vãos e desvãos de dentro com o visco do músculo, ao mesmo tempo os olhos respondiam com uma busca externa isenta de fins, a circular pelo recinto híbrido de fast food e comida lerda.

     Tranqüilo momento de mundo a se passar se passou. Seus amigos voando nas palavras, araras, flamingos matraqueando sobre um verde e alegre lago, ele o hipopótamo feito em sapo, e em nenúfar, e em mosquito, e em brisa, e em águas boas...

     E então houve um cachorro.

     No ir e vir das gentes e gentinhas e vozes e vozezinhas e cheiros de carboidratos diversos, vinha e ia o cachorro.

     Ele lá dentro, seu rosto de símio perdido e medroso, com uma busca sem fim de uma língua queimada, entre os arbustos de ombros e cabeças dos amigos a mirar.

     Ele lá fora, a língua de fora, fora sua cachorrice expressa no trote quase eqüino, uma longa cor de marfim, uma atitude cristã de procissão apressada sem deus ou santo à frente, a noite amarelada do poste a circundar-lhe a existência. Era um cachorro extremamente completo, notou.

     Porém numa imagem incompleta. Pois não tinha ares de mendigo canídeo, opunha mesmo à sua posição humilde na arrogante escala da evolução dos seres animados uma arrogância tal que, em sinal de mútuo respeito e aprovação, riram um ao outro, contentes sobre os dentes: é, é assim mesmo.

     Mas parecia mais uma arrogância de cão de dono rico, pensou, decepcionando-se.

     Todavia sem dono ia o cão. Lindamente sem dono e sem cego. E a isso devia-se a incompletude, como percebeu em sua apreciação, nem sonhando com a mosca preta encarada pelo olho preto e curioso da câmera, pousada no queijo e sua ponta desfalecida na massa do pão: era um cão que, em seu perfeito marchar de cão de dono rico, parecia que era conduzido por alguém, ou a alguém conduzisse: um dono ou um cego invisível.

     Em seguida refletiu sobre a limpeza do cachorro orgulhoso e da sujeira do centro da cidade. Mais uma falta no cão: a sujeira. Outra ainda: o abandono. Assim era um cão sem cego e sem dono e sem afinidade com as ruas do centro. De certo, pois, era um ser de outros ecossistemas, outros lugares, talvez de outro planeta. Fugitivo, desertor, invasor, quem sabe. Muito senhor de si, esse cão, refletiu. E mais uma vez riu, supondo a metáfora de um mundo de cães senhores de metrópoles sujas com homens a ladrar e a serem coletados em carrocinhas.

     Quis aprofundar-se no mistério do cachorro indevido a desfilar limpo na calçada imprópria – e vejam, tantos pães e guloseimas nas vitrines e ele nem olhava! – mas uma voz ordenou adoçante...

     Sua atenção vacilou e num espaço de um flash o cachorro inexistiu, o que o irritou. Mas o trato que vinha de desde antes da língua chamuscada do café, e da verborragia dos amigos era de que ele talvez não existisse ali (ele que de fato nos últimos tempos realmente não tinha estado ali no círculo), e com uma cara de máscara abobalhada disse, sem abrir a boca, com indizível abuso, que não incomodasse sua ausência na mesa com um pedido de adoçante, ora – que respeitasse as leis, e que além do mais havia o cachorro e seu enigma.

     O adoçante jazia à sombra dos guardanapos, como observava o canto do olho desprendido da atenção ao cão.

     A seguir, quando toda a atenção reuniu seus pedaços e tentou recompor o olho e olhar, não houve mais cão: ido, sumido, talvez nem havido.

     Só o casal de idosos a comerem hambúrgueres de carne de bode – os animais moídos e formatados dentro de duas fatias de pão se exibiam deliciosos num enorme cartaz promocional – ofereceu-se à sua atenção abandonada pelo cachorro. No entanto a mosca ainda preta instou-o ao retorno e por ela chegou à mesa, sem interesse algum, como alguém que chega ao ponto de ônibus e o transporte também chega cronometrado, inglório, uma dádiva idiota, pela qual ele nem agradece.

sábado, 24 de março de 2012

A Meta (2)

(...) O trabalho no jornal não o cansava tanto quanto as caras que via e tinha que ver. Na frente de uma e outra algumas vezes dissera insensatamente mais do que deveria ter dito e fora devidamente punido. A meta talvez tivesse a ver com isso, com finalmente largar o jornal e abrir a gráfica. Mas os dias sempre amanheciam com demasiada luz, e à beira-mar, suspirava...

Seus amigos, poucos na verdade, o tinham em alta conta como bom cantor e ótimo anfitrião. Algumas noites por semana, a piscina ondulando em azul sob as luzes do jardim, se reuniam em prol de nada mais que de si mesmos. Adriano e Márcia sempre estavam lá, os demais eram rotativos. Adriano “... o imperador, construiu uma cidade e deu-a de presente para Antínoo como prova do seu amor” dizia no dicionário, sonhando,  para amargamente concluir: “desse Adriano eu ganhei um isqueiro mês passado...”. Márcia “tem os cabelos mais lindos desse planeta, os olhos mais suaves e tristes e uma imprecisão nos gestos que encanta e causa riso. Se eu fosse mulher, queria ser o contrário dela. Mas eu a amo”.

Conversavam sobre livros, filmes, pessoas e coisas. Volutas não faltavam. Quando achavam por bem que houvesse o vinho, as alegrias se hipertrofiavam e as palavras soltas se multiplicavam. “Existência”, “dor” e “amor” não faltavam - pois isso foi há quinze anos, quando ainda havia muita esperança. Adriano às vezes tocava o violão e Ele cantava... por falar nisso, assim se definia Ele no Dicionário: “Sou Ele: desse jeito, simples. Meu nome não diz nada de mim – talvez diga de meu pai, ou da minha mãe, que foi quem o escolheu, mas de mim, nada. Palavras, brutamente falando, são sopros articulados. Como esperar que alguma verdade haja em vento que sai da boca e do nariz? Conheci um rapaz louro que se chamava Eduardo – um nome cujo som arde em chamas de poder e paixão na minha alma, um rapaz lindo... Mas nada havia de Eduardo em Eduardo. Talvez José, ou Nero, ou Lúcifer. (...) Já entrevistei um anão, que sustentava três filhos rolando no chão da praça no meio do povo, e que se chamava Julius César de Jesus (...) Meu nome é como o de Deus - é só pra dizer que eu sou - : um mero vocativo...”


Nessas noites de alegria Ele cantava as coisas que ouviam. Sua voz era grave e de uma potência inesperada. Uma vez, provavelmente já perto do sol nascer, falara de um cantor indiano, o qual aprendera a traduzir em música pura o trinado de pássaros, o coaxar de sapos e o grunhido de macacos. Segundo Ele, tais músicas, além de revelarem um talento muito mais que artístico, místico, tinham apelo hipnótico e quando reproduzidas levavam o público ao êxtase – geralmente formado por pessoas da área da música de vanguarda, artistas, intelectuais. “E mais, Ramadranath não apenas traduz o som desses animais em música, mas em letras...”

No meio dos risos que causou, Ele também riu, insistindo porém que falava a verdade, e que tinha, como prova, algumas das canções do cantor e intérprete indiano guardadas num disco. “Os nomes das canções são tipo ‘Clamor de meus filhos’, ‘Onde está o meu nenúfar?’, ‘Banana sapiens’, ‘A rã que ri no rio dos homens’... Se o Adriano for comigo até à sala procurar o disco...”

Márcia nesse instante baixou os olhos mas Ele não viu.

Antes de levantar e entrar em casa acompanhado do amigo, o vermelho de uma cinza se apagando no cinzeiro sobre a mesa de palha por um instante lhe entristeceu pateticamente...

Havia na parede da sala um quadro onde uma jangada encalhava na areia e um pescador de rosto oculto na sombra do chapéu dobrava a rede. Numa mesa três vasos em silêncio de barro se abriam rubros. Sentados no tapete – em cujos fios dois chineses do campo alimentavam duas eternas aves - Ele espalhou discos e palavras nuas, finalmente claras para que o outro ouvisse...

Mas no silêncio de Adriano as canções nunca foram achadas, nem caminho ou rua alguma foi aberto, muito menos uma cidade...



terça-feira, 20 de março de 2012

A Meta

Parte 1


A meta

“Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor”
Fragmentos de um evangelho apócrifo, 50,
Jorge Luis Borges



Houve um dia em que abriu os olhos. Supôs um caminho, uma meta qualquer. A dúvida porém sempre vinha. Espantava-a como a uma mosca, mas como mosca o “e se...” agourento revolteava e não se ia.

Prestou atenção na fumaça sendo tragada pelo vento que circulava da janela. Não deixava de ter sua beleza. “Maldito seja quem inventou o cigarro”, pensou. “Bendito seja...”, tinha dito no dia anterior, quando, no prosseguimento de seu “Dicionário das Coisas”, tinha escrito assim:

“Cigarro: coisa freudianamente masculina, símbolo da fraqueza, do glamour, da vontade de esquecimento. Mais uma das materializações do desejo humano que, como tudo que humano é, traz consigo tanto a morte como a vida. (...) O cigarro foi feito para ser fruído, e por tabela, malignamente nos fruir... Cigarro é comungar com o mundo por via desse ritmo existencial, antiqüíssimo, semi-divino, o da respiração. Fumar é pulsar no mundo de uma certa maneira. Nociva que seja... E encerra mistérios tais... Até hoje não há teoria científica que explique a vontade e a incerteza hipnótica das volutas azuladas que saem dos pulmões a evoluir as moléculas do fumo, do fumante e outras mais no vento. Volutas são nuvens de dentro. Seu destino tão desconhecido como o de quem as suspira, nervoso ou calmo. Considerando que a única certeza de que dispõe um mero ser humano é a morte, fumar é compartilhar com o Todo a essência de Tudo: misto indelével e angustiante de certeza e incerteza. Cigarro é portanto a certeza de morrer – da perspectiva individual, pequena, pouca - , e, a um só tempo, a incerteza do porvir – do Derredor, do Grande, do Tudo. Marilyn Monroe...”

E assim por diante. O Dicionário era uma tentativa de esquecer e lembrar ao mesmo tempo. Um passatempo. Algo como para fixar-se no papel, antes que, como as volutas, fosse tragado pelo vento e sumisse de vez.

Quanto à meta, provavelmente na próxima hora a esqueceria. Supria-o o sol daquela manhã e a vaga lembrança das flores do jardim. Cultivava-o como terapia. Cães e gatos estavam além de sua capacidade de cuidado e apego. Já as plantas são vivas, bonitas, simples e verdes. Que elas sugassem sua vida do ar, da terra e do sol lhe parecia uma magia quase assustadora, e que por isso, merecia uma certa adoração. Regava as plantas invejando-as. Nunca tentou falar com elas, era muito cético. Mas o balançar de uma folha lhe dizia tanta coisa que um dia chorou sem saber porque, tímido. Lembrava-se também de uma vez que um besouro parecido com uma abelha se deitara no néctar de uma pequena flor rosa, e de como houvera êxtase no movimento de suas patas e antenas. Na terceira semana se surpreendeu com a tessitura que uma aranha fina e astuta lograva no meio do verde e da sombra. No fim do mesmo dia um inseto jazia em conserva, como uma múmia, na teia. No centro, longe, a aranha gozava do momento.

No Dicionário figurava assim o verbete jardim: “É a paragem onde transmorfias maravilhosas acontecem no silêncio mais absurdo que pode existir: o da vida que se faz. Orquestras deveriam soar, trombetas estrondosas deveriam gritar, ou pelo menos uma flauta e um oboé deveriam acompanhar cada desabrochar de flor e luzir de folha. Alquimistas, magos, cientistas olham pro tronco que se ergue, pro sol que se deita na folha, pras cores que vemos e que não vemos, com mágoa – a de não poder, a de ter que se contentar com o mistério, sem talvez nunca achar sua luz. Quando a chuva em gota escorre na poeira seca de uma folha verde vivo fica mais fácil acreditar em Deus”.

Quanto a abrir os olhos, fechava-os com freqüência. Tinha hipersensibilidade à luz e pensava mesmo que com o tempo deixaria de sair de casa antes que apenas a lua brilhasse no céu. Uma vida de vampiro até que lhe agradaria - desse ser, que segundo ele “une o melhor da morte e da vida. Deseja ardentemente, tanto é que só o corpo não basta, tem de ter o sangue. A crer nas novelas escritas ultimamente, são belos, inteligentes, galantemente cruéis. Voar, viver séculos, ter tempo e sangue para acumular a sabedoria do tempo de viver e de morrer: só a fantasia poderia criar uma coisa tão boa...”.

(...) 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

As bichas que gongavam as raxas

Acho que não é porque as feministas aparentemente adoram a obra de Stieg Larsson que a série de três (ou quatro) livros deve ser chamada de feminista.

A figura de Lisbeth Salander, a heroína do escritor sueco, é desafiadora, tanto pro autor como para o leitor. Os anti-herois pululam há muito tempo na literatura, e no cinema já têm virado um clichê (jovem rapaz fracote que vira super-herói musculoso, etc). Em Os Homens que não amavam as mulheres, não se pode dizer que a heroína evolui, no sentido de que se torna outra pessoa irreconhecível em relação ao começo. Ao contrário, a dejustada e misteriosa Lisbeth se vê desde o começo de tudo diante de fantasmas da sua infância e adolescência que ela tem que enfrentar sem alternativa possível. E faz isso afirmando-se enquanto mulher certa do que quer e do que faz, numa saga tão original quanto ela mesma. Não exatamente bonita, amante das roupas pretas, sexualidade tateante e afeita ao silêncio ou aos monossílabos, a jovem de vinte e poucos anos incorpora em si uma série de traumas ou problemas que têm tudo a ver com os desajustes familiares das sociedades ocidentais atuais – obviamente num nível catarticamente exagerado.

O título em português do primeiro livro, transformado em filme por Hollywood recentemente, segue o original sueco Män som hatar kvinnor, e, talvez diferentemente do original, esconda mais da incrível e apaixonante história de Lisbeth do que a torne atraente... O título inglês, que em português seria A garota com tatuagem de dragão é mais sensata. Os homens que não amavam as mulheres jogado de cara nos nossos ouvidos, nos contextos de discussões pops atuais, lembra algo mais próximo daquilo que denota o título desse post do que outra coisa. Mas pelo escrito até agora, fica mais ou menos claro que a sugestão imediata não tem nada a ver com a riqueza da história.

Entre os “homens que não amavam as mulheres” estão homens violentos que se divertem agredindo filhas e esposas, estão loucos nazistas misóginos, os exploradores sexuais, os violadores... Lisbeth Salander é a que se ergue da bagunça que é sua vida - exatamente por ter sido vítima do não-amor dos homens - para lutar contra a falocracia generalizada e o reinado de violência adjunto.

Cenas duras de violência, sagacidade, humor e amor não faltam. O ritmo é de um drama investigativo e de um thriller de ação. Impossível não lembrar do esquema Tarantino ao nos vermos torcendo pelas vinganças perpetradas por Lisbeth – e muito bem feitas.

Não digo mais sobre o filme. Ainda sobre o título, a sala de cinema com menos da metade dos lugares deve ter a ver com isso. Um filme tão bom quanto é Millenium, sugerido pelo primeiro livro da série, merece aplausos.

E claro que estamos falando de Hollywood. Europa é e sempre será outra coisa.