terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Sobre cascas, caroços e amor

São quase 8 bilhões, ou somos quase 8 bilhões (se quiser ser mais inclusivo), de espécimes humanos na casca desse planeta. Se a Terra fosse uma maçã, qualquer observador com um microscópio concluiria que essas manchas na superfície azul, verde e marrom, esses dejetos, essa poluição criada pelos micróbios humanos, são coisas ruins e devem ser extirpadas…

Mas ok, não entremos nesse papo existencial ecológico.

Falemos de cascas e caroços, mas não de frutas ou da Terra (que, aliás, fechando a metáfora acima, seria uma maçã inteligente, ou smart apple – longe de sucumbir à podridão microbiana humana, como sói ser, ela se autorregularia [nem que demorassem séculos] e acabaria matando os germes com tsunamis, raios solares impiedosos, etc…) –enfim, falemos sim de cascas e caroços, mas de seres humanos.

What the hell?

EM certas situações conextuais da vida de uma pessoa, como a saída de um emprego, uma mudança de país, ou o término de uma relação, é normal que se entre num estágio, duradouro ou não, intenso ou não, de abertura a novidades, a novidades relacionais e interativas – ou seja, vocÊ se disponibiliza a conhecer pessoas. E isso, conhecer pessoas, seja no trabalho, no bar, na rua, na faculdade – sempre é uma aventura – ou uma desventura.

Três décadas de existência (quase três décadas e meia) são algo digno de nota – pra quem tem mais, nem tanto, mas não entremos nessa discussão etária. Depois de um certo tempo, sobretudo se vocÊ é uma pessoa que tem que lidar diariamente, de forma contínua e necessa´ria, com outras pessoas, e gente de todo tipo, certos padrões começam a se repetir. Mesmo que não se parta de simplificações maniqueístas e um tanto estúpidas, tais como boa pessoa versus má pessoa; pessoa negativa versus pessoa positiva; cara legal versus cara chato, certos padrões vão surgindo, emergindo, se repetindo ao longo do tempo e do espaço: seja em Paris ou em Caucaia, Buenos Aires ou Canoa Quebrada, um incrivelmente estável padrão de modus operandi emocional humano vai se revelando, se você for uma pessoa atenta, paciente e meio doida. Junte essa impressão de padrão, ou convicção, ou whatever, com conhecimentos mais ou menos esparsos de psicologia, psicanálise, budismo e linguística e você tem uma reflexão miçangueira de humanas típica – simples e inspiradora, calcada num pragmatismo light e ao mesmo tempo humanista, e com laivos de misticismo…

Falando logo: pessoas são casca, egos são caroços. Pessoas são serezinhos, serumaninhos desesperados, loucos, doidos por proteção e amor – todos, TODOS, sem exceção. E são frágeis, estão mais pra ovos de galinha do que pra frutas. Conscientes de sua fragilidade, a da necessidade vital do Outro, esse ser humaninho busca aprender a se defender – e cria cascas, camadas de dermes, epidermes, megadermes. O desafio é: defender-se, endurecer a carapaça e, ao mesmo tempo, manter algum orifício de entrada (olha o séquiço aí), alguma região sensível, onde o toque não seja experimentado como mera cócega, mas como carinho quente, ponto G, calcanhar de aquiles de conexão íntima afetiva com o outro… Nesse paradoxo – se fechar pra se proteger, mas se abrir pra se conectar de verdade e profundamente com alguém – reside a agonia e o petético, o ridículo dos seres humanos.

Toda uma fauna de Homo afetivus ridiculus floresce então: aqueles que escondem qualquer necessidade do Outro e esbanjam autossuficiÊncia – a única brecha afetiva sendo o sexo puro, como um comportamento histérico, um droga, um TOC…

Tem os que até abrem um buraquinho (olha o séquico again…) e mostram um pouco do núcleo, um brilho vermelho de um coração de rubi pulsando lá dentro – mas quando veem nos olhos do Outro algo que não era a chama de amor e de admiração que esperava, fecham tudo, dizem que aquilo foi um show e saem correndo, quase que literalmente…

Tem os que meio que decidiram ser malvados – sabem que tem uma galera mais boba que é louca por emoções fortes  - o ovo que adora rolar doidamente e cair da borda da mesa – e dão uma de esfaqueadores de corações: acabam com corações como quem come coração de galinha. Mas calma – os malvados também tÊm coração – salvo raridades neurológicas mórbidas, todo mundo se sente só, todo mundo chora, todo mundo quer ter alguém do lado.

As tipologias acima, é claro, são insuficientes – são fruto de observações pontuais e sob uma única perspectiva – a de um ser humano que vive e sente.

Voltando aos caroços.

Desde pequenos somos ensinados a pôr isso que chamamos de Eu num pedestal – deriva disso a ideia de que se deixar fazer de bobo é um pecado mortal; os pais, sobretudo os do sexo masculino, criam toda uma mitologia pra convencer o filho de que ser passado pra trás é vergonhoso, é desonroso, etc. Esse é apenas um exemplo de como o ego é supervalorizado – em detrimento do que sentimos ou queremos. Proteja seu ego, proteja seu eu, não o exponha, não o deixe sofrer, não arranhe seu orgulho, defenda-o com a própria vida social. E como um cachorrinho de dondoca fresco, o ego fica lá dentro de uma jaula, latindo em desespero, artificialmente limpo, asséptico – quando na verdade o que queria era sair correndo, se sujar na lama, bater a cabeça na parede, copular com os viralatas na rua…

Não sei se está bem claro, mas repetindo:

Todos os Homo Sapiens são frágeis e necessiatados de amor e carinho – e isso é uma constante que se faz assustadoramente presente. O que diferencia cada criatura humana é a forma como expressam essa necessidade – mais ou menos como comer: enquanto uns são delicados à mesa, comendo devagar (olha o séquiço) e mastigando muito, outros comem como cães famintos, engolindo tudo de uma vez… E como cachorros loucos, atacam enraivecidos a mão que queria afagá-los…

Pra terminar: é impressionante como, na maioria dos casos, é simples descobrir esse caráter frágil – e lindo – das pessoas. Uma conversa, alguns gestos, olhares sinceros, e as pessoas se abrem, desabrocham como flores… ou explodem como bombas… Mas sempre lá dentro, o mesmo caroço mole, o mesmo coração esponjoso sedento por contato, compreensão, proteção – ou seja, amor.

O triste, cômico, trágico do processo, como disse, são as estratégias de defesa e expressão desses corações-caroços – uma película transparente, uma couraça de espinhos, agressividade verbal desnecessária, falsidade exarcebada, superficialidade afetiva e emocional…


Homo Sapiens e suas loucuras: #amo #odeio #apenasObservo

Um comentário:

  1. "...Incontáveis arrependimentos são gerados pela confiança dada à pessoas erradas… e o quão desolador isso pode ser! É um tipo de sabedoria que vem com o tempo e, infelizmente, com as experiências negativas, levando as pessoas a se fecharem cada vez mais, obrigando-as a encolher o próprio universo, restringindo-a a uma prisão sem visitantes. E sufocam-se nela. O que ocorre então, em função disso, é o acesso negado à quem “chega atrasado”.

    Aquela pessoa que viria a importar (e se importar) realmente. É este alguém que paga o preço pela incompetência dos outros.

    É este alguém que não é percebido, tratado como “mais um”, comum entre tantos outros. E é isso que torna em verdade a expressão “os homens são todos iguais”. E claro, eu reconheço não ser ninguém para tentar desmenti-la..."

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