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terça-feira, 12 de março de 2013

Aulinha legal e divertida - com figurinhas! - para crianças e adultos especiais! (sobretudo para os que querem ir pro céu)

Oi crianças!

Hoje a lição é sobre homossexualidade e homofobia! Êeeee!!!

Olha que legal, prestem bem atenção nas figurinhas que o tio vai mostrar:

Homossexuais são pessoas, iguaizinhas a mim e a vc, ou ao Papa, ou à sua mãe ou ao seu vizinho fofoqueiro: elas comem, trabalham, riem, choram, vão pro parque, soltam pum e querem ser tratadas bem.

Homossexuais não nem antenas nem rabos, crianças. Eles podem ser assim ó:




 Eles podem ser médicos, cabeleireiros, motoristas de táxi, advogados, artistas, engenheiros, diretores de escola, padres, pastores...

Heterossexuais são assim - olha que legal:




Quem sabe qual é a diferença entre heterossexuais e homossexuais? Isso mesmo! Nenhuma!

 Antes de continuar com a nossa historinha, queria perguntar quem sabe que país é esse?

Olha, que sabidos! É o Brasil! Que país grandão né? Tanta gente mora aqui - gente preta, gente branca, gente mulata, índio, gente chata, gente legal... Sabe porquê? Porque o Brasil é uma DE-MO-CRA... CIAAAAA... E também é um país LAAAAAI-COOOO!!! Isso!

E esse país aqui, qual é?


Muito bem! É o Irã. O Irã não é uma democracia - é uma teocracia. O que é uma teocracia? Lá quem manda é Alá - Alá é como os muçulmanos chamam Deus. Os homens de lá matam e torturam quem não concorda com as coisas que os profetas disseram há mais de mil anos! Que coisa triste né, crianças?

Só pra repetir: o Irã é uma democracia?
- Nãããããão!!!
- O Brasil é uma teocracia?
- Nãããããão!
- Muito bem!

E o que é homofobia? Homofobia é quando uma pessoa tem raiva de um homossexual e faz tudo pra atrapalhar a vida dela. Tem gente que mata homossexuais só porque eles são homossexuais! É crianças!

Olha essa imagem, agora... O que é isso? Acertou! A Bíblia!
Uns homens muito velhos escreveram algumas partes há muito, muito tempo, uns 3000 anos atrás. Nesse tempo, os homens se vestiam com roupa de couro, nem tinham casa onde morar e matavam bezerrinhos e queimavam a carne deles pra calmar Deus, que naquela época era muito bravo:
Hoje ninguém faz mais isso no Brasil, mas tem gente que ainda quer matar homossexuais porque está escrito lá - mas porque será que tem gente grande que não pára de cortar a barba, como diz na Bíblia? Nem joga pedra na mamãe de vocês se ela sair sem o papai deixar? Pois é crianças, gente grande é esquisita né?

O mundo mudou muito e hoje a gente tem celular, computador, bebê de proveta, o carro... A ciência hoje é muito importante pra nossa vida e pra vida dos outros, né - a sociedade de hoje, de agora, não é a mesma do tempo de Noé, não é verdade?

Tem gente que diz que ser homossexual é uma doença. Mas vários cientistas disseram que nisso não é verdade. E todo mundo sabe que isso aqui, ó, é doença:


Isso, a gripe! E isso aqui também:
Que coisa feia! A pedofilia! O que foi que o tio disse se uma pessoa grande querer tocar em vocês de um jeito feio? Isso, chama o papai ou a mamãe pra eles chamarem a polícia!

Ah, e tem gente grande também que diz que ser gay é um crime, é uma coisa feia como usar drogas! Mas todo mundo sabe que isso aqui acontece...

...quando alguém usa drogas ou rouba alguém...
Mas vcs sabiam que o nosso país tem uma bíblia? Só que ela não foi escrita há mais de 3000 anos, mas  há mais de 30 anos. Como a gente chama essa bíblia? Isso, Constituição Federal! Ela muda de vez em quando - a constituição de 1988 não é a mesma do Império, por exemplo - as pessoas mudam e a bíblia do nosso país também tem que mudar. A bíblia de Deus só vale pra quem tá na igreja, tá crianças, mas a constituição vale pra TODO MUNDO. Na constituição, todo mundo é igual e deve ter acesso aos mesmos direitos e deveres:

Então se todo mundo é igual, esses casais aqui são todos iguais:

A Maria e o João:
O Felipe e o Paulo:
A Ana e a Cláudia:
E devem ter acesso aos mesmos direitos que o papai e a mamãe têm - não é verdade?

- Mas tio, eu não tenho papai nem mamãe...
- Mas tem a sua vovó e a titia, não tem?
- Tenho...
- Então, você também tem direitos, e sua vovó e sua tia, que cuidam de você, também!
- Mas isso é normal, tio?
- Claro que é!

Então crianças, se todo mundo respeitasse os outros, se todo mundo se importasse com a sua própria vida e se todo mundo seguisse as leis do país, o mundo não seria assim, ó?

Então, crianças, a lição é essa:

Todo mundo tem o direito de ser feliz contanto que não machuque o outro, tá bom?

Beijão!




Se o recado não estiver dado, aconselho para alguns fundamentalistas de plantão que se inspirem livremente neste filme.

Ou, para os mais temerosos com o Apocalipse, vejam isso.

No mais, abraço para todos e todas!











quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Não toque no meu deus


Eu quero acreditar que para apenas 0,0000025 das duas ou três pessoas que me leem muçulmanos são pessoas morenas com turbante na cabeça, que falam uma língua cheia de Ls e Rs e que vivem empunhando rifles sob um sol escaldante...

Diante do que se vê hoje na mídia, de fato é difícil visualizar a Era de Ouro árabe, tão admirada por pessoas como Jorge Luis Borges, quando a Europa era um continente primitivo e sujo que queimava pessoas, enquanto que os muçulmanos possuíam obras filosóficas clássicas, e tinham azulejos limpos, e produziam grandes nomes da medicina e na química. As Mil e Uma Noites, esse clássico incrivelmente belo e complexo, que mostra um universo no qual, mesmo sem saber, muitos de nós já vivemos, são praticamente impossíveis de evocar ao vermos homens-bombas explodindo, ou monstros disfarçados de manifestantes  religiosos estuprando um embaixador ameriano antes de assassiná-lo...

Uma frase como “nem sempre os deuses existiram” seria bombástica demais e inútil em relação ao que queria dizer; outra como “os deuses nunca exigiram tanta dor e morte” também seria inútil, além de mentirosa. Então passemos pra outra: “Que deuses são esses?”

No mesmo instante, haveria certamente quem protestasse dizendo: “Questione os que seguem esses deuses, e não os próprios deuses...”. Pois muto bem, ao invés dos deuses questionemos os crentes  (até porque estes são os únicos aos quais se têm acesso imediato... pelo menos em tese...)

Um suposto filme, chamado A Inocência dos Muçulmanos, teve um trailer de 15 minutos ressuscitado no youtube (sim, pois o vídeo se encontrava lá desde junho) há duas semanas: conta a história de um Maomé explorador de menores e violento, bem longe da imagem do profeta amado e adorado por mais de um bilhão de pessoas. Todos vimos na mídia que isso foi o bastante pra inflamar uma infitamente pequena parcela dessa população, mas suficiente pra fazer um bom estrago em vários países do mundo. Eu, pessoalmente, acompanhei os comentários online que as pessoas que acabavam de ver o vídeo faziam na página do youtube, a maioria extremista dos dois lados: americanos ignorantes e muçulmanos tão ignorantes quanto: as palavras de ordem eram de puro e surpreendente ódio, uma incompreensão mútua que num primeiro momento dava pena, depois medo e depois um certo desespero...

Intocáveis 2: "Não pode debochar!"*
*Tradução livre, leve e solta
Dias depois, uma publicação satírica francesa, Charlie Hebdo (por favor, não pronunciem, como os jornalistas daquele triste canal de comédia política, Globo News... o correto é char-lí heb-dô), publica, meio ineptamente, uma charge retratando o profeta Maomé... E isso pra quê? Pra jogar lenha na fogueira? Essa é a primeira hipótese, que foi a minha. Eles queriam apenas vender mais exemplares, pois são, como os próprios declararam ao Le Monde, gente de extrema esquerda que apenas procuram fazer algo engraçado. Pois sim. E me pareceram sinceros, apesar de um pouco inconsequentes. E o que fazemos com gente inconsequente? Estupramos, prendemos e queimamos, num é não?

Eis o ponto: se os árabes já representaram o que havia de mais avançado no passado, muita coisa aconteceu entre os séculos XIII e XXI, muita coisa mesmo, inclusive petróleo, Estados Unidos, Rússia e cia, com muita dose de ganância, cinismo, impiedade, racismo... Não se pode esquecer o papel de Israel na equação toda: não é a primeira vez que se vê na história o perseguido se tornar o perseguidor...

Enfim, muita água correu e o que temos é o que mais vemos: violência, extremismo... mesmo que praticados por uma minoria: sim, pois é uma minoria que queima carros, que degola cidadãos, que oprime seus pares. Mas é uma minoria organizada e articulada, que sabe cultivar e canalizar ódios e rancores seculares na hora certa: e é isso o que acontece agora. No mundo árabe, é bom lembrar que nem todo mundo tem acesso à mesma quantidade de informação a que temos aqui num país como o Brasil: o trailer do filme A Inocência dos Muçulmanos, que mais parece um episódio tosco do Chaves, tirado do contexto e propagado em tom de ódio, foi muito bem utilizado pra incendiar multidões de homens e mulheres que saíram às ruas gritando palavras de ordem de uma simplicidade absurda: ABAIXO A AMÉRICA...

Voltando aos editores e desenhistas do jornal francês Charlie Hebdo: há pouco tempo atrás, minha postura pessoal seria a de condená-los por sua inconsequência e balançar a cabeça até com raiva contra esses doidos irresponsáveis que só querem ver o circo pegar fogo... Mas, sinceramente, mudei de ideia.

Fui a Paris há dois meses e as coisas que vi lá me disseram coisas: me disseram que árabes e muçulmanos são pessoas respeitáveis e que têm todo o direito de abandonarem seus países arrasados pela cobiça e ingerência das antigas metrópoles, para virem viver nos países europeus... Mas tb entendi que um eterno ressentimento não pode servir de justificativa ou explicação válida permanente para todo tipo de reação ou ação destrutiva por parte de grupos oprimidos, com ou sem aspas.

Sim, lá eu vi ou senti um certo racismo no ar entre os franceses “de verdade” e os de origem árabe (mútuo, por falar nisso). Senti sim que a igualdade no país da declaração dos direitos humanos é ainda uma utopia. Mas tb senti outra coisa: há uma “vontade de não sair do lugar”, um desejo de “ser como somos e ponto final” que perpassa o ânimo desses mesmos oprimidos (sem aspas nenhumas). A postura de “sou assim e vc tem que me respeitar mesmo que isso inclua machucar pessoas de vez em quando” seria mais um abuso do direito a ser quem se é do que algo que realmente se grita nas ruas de Paris, sobretudo nas da periferia. Mas é esse abuso do direito a ser que é usado para justificar mortos e feridos nos protestos que vemos no mundo todo; é esse abuso do direito de ser que quer calar a boca dos desenhistas e editores do Charlie Hebdo; é esse mesmo abuso que faz com que uma instituição muçulmana chamada OIC queira que a ONU inclua na declaração dos direitos humanos a punição à blasfêmia...

Blasfêmia, punição, deuses... Isso lembra alguma coisa? Inquisição, Idade Média...?

Pois é. Respeitar toda e qualquer religião deve sim ser dever de todo cidadão, brasileiro, americano, etc. Mas temos que escolher entre os modos que podem ser utilizados para se responder a um ato de desrespeito: na maioria dos países ocidentais, trata-se de procurar um advogado e entrar com um processo. Este parece ser um modo adequado para a maneira que a nossa constituição brasileira nos propõe viver: cidadãos pluralmente constituídos vivendo em paz e harmonia (que toquem harpas...). Porém, o Extremist Arabian Way of Punishment não condiz com o que se pensa ser mais aceitável, e por isso, talvez um pouco mais de visão crítica sobre as manifestações induzidas pelos extremistas muçulmanos seja necessária.

Tratar os revoltosos religosos como crianças medievais que podem tacar fogo em tudo e que devem ser acariciadas em vez de punidas parece ser tão eficaz quanto condená-los de maneira sumária e intolerante, como o fazem evangélicos fundamentalistas americanos e brasileiros. Estes, aliás, se julgam bem acima daqueles, deplorando o ódio dos homens queimados de sol de rifles na mão... Mas olhe em volta, ou melhor ainda, olhe pra televisão: os homens de terno diante de multidões sustentam ideias que são muito parecidas com as dos extremistas muçulmanos quando falam das religiões dos outros: “Não podemos deixar ninguém tocar o nosso deus”, “Nossa fé é a única e verdadeira”, “Estamos em guerra contra os ímpios”, “Nosso deus não admite outros deuses”... É como se víssemos um espelho... mas há uma diferença: aqui neste país, como na França ou nos EUA, a lei não é religiosa pq existe um estado laico. E isso faz toda diferença. Por mais que um Malafaia da vida declare em alto e bom som que “os católicos deveriam descer o cacete nos gays”, isso fica apenas nos seus sonhos, em que provavelmente ele mesmo faria isso com trajes de sadomasoquismo... Mas (por enquanto) ele não ousaria pôr suas ações de amor ao próximo em prática.

E porque seria aceitável que muçulmanos, que creem num deus muito parecido, senão o mesmo, de cristãos e judeus, façam lá o que Malafaia quer fazer aqui?

Mesmo que os desenhistas franceses tenham de fato jogado lenha na fogueira, é bom saber que a fogueira queimaria de qualquer jeito: parece que enquanto Ocidente e mundo árabe não encontrarem um caminho que resulte numa maior intercompreensão, sempre haverá pirômanos prontos pra matar seus compatriotas em nome dos deuses, a fim de manter um pouco de poder.

O que queria dizer mesmo é que: deuses podem até ser intocáveis, mas os que causam dor e morte em seus nomes, não. E estou falando tanto da mulher-bomba que explodiu há dois dias quanto do jovem cristão presente na Marcha da Família que jogou uma lata de refrigerante na cabeça de uma moça homossexual que passava próximo...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Histórias únicas ou Viseiras de burro

Conhecer o mundo e suas coisas é conhecer suas histórias. Quando crianças ouvimos as histórias contadas pelos adultos, que as utilizam pra nos explicar o que vemos e não entendemos, como a chuva, o trovão, a morte. A curiosidade da criança faz com que absorvamos gulosamente tudo, e que tudo seja marcante no nosso modo de pensar: assim é que eu jurava que os trovões ocorriam quando duas nuvens se chocavam com força no céu nublado... Isso até que nos livros de ciência vi que a história que a minha mãe, mulher muito inteligente e criativa, contava não correspondia bem ao que chamamos de realidade. Mas no momento em que me foi dito que as nuvens se chocavam e produziam sons terríveis, aquilo fez sentido; tanto é que na minha cabeça aquela história se tinha incorporado como conhecimento válido sobre o mundo. A sorte foi que nunca precisei apresentar um trabalho científico sobre as tempestades antes de ter acesso à informação cientificamente correta...
Houve um tempo em que a chuva já foi a urina ou a saliva de Deus, o sexo já foi uma mera troca de sementes via beijo... Hoje, é óbvio que tais visões simplistas não cabem, por mais poéticas e ternas que sejam. Até o momento em que elas eram a única história conhecida, eeu não precisava me confrontar com realidades diferentes das do lar, onde havia conforto e segurança, não houve problema...

A questão é quando esse sistema de conhecimento baseado em “histórias únicas” prevalece e prossegue durante toda a vida de um ser humano. A chuva como saliva de Deus da criança pode, no adulto, se transformar em fonte de desentendimento, distância, estupidez...

Por exemplo, falemos dos estereótipos, que são versões adultas desse fenômeno da “história única”: todos nós já fizemos uso das simplificações extremas que são os estereótipos: os franceses não tomam banho, os africanos são esfomeados, gays são pervertidos, mulheres são frágeis, e por aí vai. É perfeitamente normal que se visite uma cidade ou país que não se conhece se utilizando de alguma informação ou fragmentos de informação a que se tenha tido acesso alguma vez. Ir a Paris achando que os franceses são contraditoriamente elegantes e fedorentos pode ser até aceitável; mas estar diante de pessoas educadas e ultra-limpas e ainda assim achar que as mesmas estão sujas por debaixo das roupas porque foi assim que se aprendeu, configura um certo nível de esquizofrenia, não?

Há exemplos menos cômicos do que é ser prisioneiro da viseira da burrice dos estereótipos, da versão única de uma história sobre um povo ou indivíduo: conversando com uma colega cabo-verdiana nos tempos de faculdade, ela falava do país dela com orgulho e também de como era irritante ter que explicar a pessoas curiosas e ingenuamente maldosas (ou cruelmente ingênuas) que nunca tinha montado numa girada ou passado fome ou tido um chimpanzé como animal de estimação... ou que não, não tinha parentes nem amigos que haviam morrido de aids... As lágrimas dela diziam o quanto de dor pode causar um coice de uma pessoa que se satisfaz apenas com o que ouviu falar ou o que disse um certo livro sobre tal coisa.

Pessoas pobres são ignorantes, pessoas ricas são “esclarecidas”... – os estereótipos são eficazes a tal ponto que podem simplesmente cegar diante do óbvio e ululante, diante do que está bem à nossa frente. Eles podam pessoas e grupos para caberem em pequenas gavetas que aprendemos a arrumar e organizar nos tempos de criança. A surpresa nos olhos ao ver uma mulher dirigindo bem, o “mas” na frase “é gay, mas é gente boa”, a incredulidade ao ver um africano com pós-doutorado – tudo isso são os relinchos do jumento que se assusta com tudo o que não esteja no campo de visão abarcado pelas suas viseiras... Ainda que relinchos possam machucar, seriam problemas menores se no mundo humano correspodedessem apenas a vocalizações desconexas... mas sabemos que seres humanos são bons em transformar toda e qualquer coisa em motivo para guerras e violência, e aí temos personagens malditos como o que costumo citar nos posts de protesto deste blog.

Se os jumentos com viseira dificilmente conseguem se livras das mesmas por meios próprios, é claríssimo que com seres humanos a coisa é diferente.

Ignorância mata, causa impotência, câncer e etc, mas tem cura. E essa cura passa pela curiosidade, ou menos exigentemente, pela não aceitação do que se ouviu uma vez ou de uma fonte apenas. Há vários níveis de “histórias únicas”: desde aquelas que dividem as pessoas em cristãos, gente do bem e pagãos, gente esquisita; até aquelas ideias do senhor chamado Freud, que por mais que não tenham nenhuma ou pouca base na realidade, seguem como revelação de um semideus ou de um iluminado...

Aceitar uma única versão sobre um fato, uma pessoa, um povo, uma história pode ser cômodo, pode ser o que certo grupo espera de vc. Mas se um coice seu doer em alguém, saiba que um dia o de alguém vai doer em vc também... De modo que pra evitar essas metáforas de jumentos, que tal deixar a preguiça de lado e, no mínimo, ler aquele outro jornal, consultar aquele outro autor, ou conversar com aquele outro amigo, antes de ultrassimplificar tudo e meter na gaveta do “Caso encerrado: eu sei que a vida é assim”?

P.S.: O que disse acima é praticamente uma recombinação dos elementos que Chimamanda Adichie brilhantemente apresentou numa das melhores conferências TED que já vi. Só não vejam se as viseiras não deixarem: http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html

sábado, 30 de junho de 2012

A vida de uma pessoa


A pessoa acorda.
A pessoa tira as remelas dos olhos.
A pessoa pensa por segundos profundos que a água gelada que enche o copo pode ter sido bebida um dia por algum filósofo do passado... (Momento "somos pó de estrelas" e etc...)
A pessoa toma o café pensando no andamento do dia.
A pessoa sai para trabalhar e lamenta as horas perdidas que muita gente vai gastar no ônibus ou no carro, enquanto que aqueles passarinhos são tão livres (a pessoa tem rasgos poéticos esparsos durante o dia de vez em quando).
A pessoa dá bom dia e recebe bom dia da metade das outras pessoas.
A pessoa trabalha.
A pessoa sorri.
A pessoa liga para a pessoa amada e se sente menos estressada.
A pessoa pensa na vida dali a cinco anos durante o almoço (antes a pessoa prepara o almoço).
A pessoa volta ao trabalho.
A pessoa chega em casa feliz por ter cumprido 80% dos deveres pessoais.
A pessoa faz faxina segundo as circunstâncias exijam.
A pessoa sai com amigos no fim de semana.
A pessoa dá o lugar pra velhinha no ônibus e dá a vez pro apressado no cruzamento.
A pessoa não joga coco na praia nem lixo no chão.
A pessoa se espanta com os preços no supermercado e maldiz o governo por pegar 37% do seu dinheiro todo mês.
A pessoa espirra e se esforça pra que o espirro não atinja ninguém.
A pessoa dá descarga sempre.
A pessoa sorri a um bebê sorridente nos braços de uma mãe e se sente inexplicavelmente feliz.
A pessoa se lembra da infância.
A pessoa se lembra das pessoas que perdeu.
A pessoa dorme de uma vez e acorda tarde.
A pessoa tem momentos de vingança imaginária onde sangue e carne queimam.
A pessoa pensa bem, respira fundo, xinga mentalmente e vai viver a vida e etc.
A pessoa ouve piadinhas.
A pessoa vê outras pessoas dizendo que a pessoa vai pro inferno.
A pessoa fica possessa de ódio mas respira porque senão sai endoidando por aí.
A pessoa chega cansada em casa.
A pessoa liga a TV ou o computador e outras pessoas que se dizem santas vilipendiam a vida da pessoa.
A pessoa se indigna e pede paciência aos deuses.
A pessoa de vez em quando é esfaqueada.
A pessoa protesta... e outras pessoas protestam contra a pessoa pq a pessoa quer ser como qualquer pessoa.
A pessoa de vez em quando recebe socos na cara.
A pessoa fica com medo.
Mas a pessoa acha um absurdo e jura não ficar quieta.
Outras pessoas acham um absurdo a pessoa achar um absurdo ser esfaqueada de vez em quando por ser a pessoa mesma, e fazem marchas contras pessoas que querem se casar com pessoas.
As pessoa pira.
A pessoa quer mandar todo mundo pra... pessoa que o pariu.
Mas a pessoa respira e prefere fazer abaixo-assinados e votar nas pessoas certas.
A pessoa mais uma vez, em algum lugar do Brasil, leva uma lâmpada fluorescente na cara pq estava de mãos dadas com outra pessoa.
A pessoa tem medo.
A pessoa se pergunta, sem entender, pq é tão difícil para tantas pessoas aceitar outras pessoas do jeito que elas são, já que ninguém morreu, ninguém perdeu, ninguém roubou.
A pessoa se pergunta: PORQUE?
A pessoa é um assassino?
A pessoa é um ladrão?
A pessoa é um político corrupto?
A pessoa é um padre pedófilo?
A pessoa é um pastor que lidera igrejas de pessoas muito pobres mas que usa rolex e tem vários carros caros?
A pessoa sai de casa em casa perguntando o que as pessoas fazem a dois ou três ou quatro na cama?
A pessoa é Jesus Cristo pra levar na boa tentar ser uma boa pessoa e todo dia ser tratada como sub-pessoa?
A pessoa é louca?

NÃO, diz a pessoa.

A pessoa é gay.

E..?

A pessoa é simplesmente uma PESSOA, *ORRA!



domingo, 6 de maio de 2012

Queremos o seu dinheiro, não você

Ah o dinheiro... No bolso é vendaval e nos bancos, rendendo infinitamente para enriquecer pessoas já ricas a partir de uma nuvem de teorias e humores do mercado, é o oxigênio do nosso mundo financeiro... Vc já parou pra pensar como é estranho uma civilização inteira construir praticamente todos os âmbitos de sua existência baseada na busca pelo dinheiro? Vc já pensou como isso é esquisito? Vc consegue imaginar  uma formiga enfiando a haste de uma folha de árvore no abdome de outra pra roubar um pedregulho microscópico que a outra estivesse carregando? Um alienígena chegando no nosso planeta talvez demorasse pra entender pseudo-tragédias como as crises de 2008 e 2011 - crises de espuma, produzidas, previstas e fomentadas por crianças especuladoras brincando na banheira... Ou talvez nos entendessem logo: civilização burra.

Humberto Maturana tem ideias interessantes sobre o assunto (aliás, quase todas as ideias de Maturana sobre qualquer coisa são interessantes, leiam): ele diz, por exemplo, que um sistema social só pode ser considerado como tal se a finalidade de seu funcionamento for a manutenção da vida de seus próprios elementos, o que, no caso do sistema social humano, seriam as pessoas. A partir disso, ele afirma que um formigueiro é um sistema social, assim como uma colmeia ou uma tribo de bonobos; mas as sociedades ocidentais ou ocidentalizadas atuais não, pois sua finalidade não é a manutenção da vida de seus membros, mas sim a continuidade de um sistema financeiro que garanta ganhos para um grupo seleto de seres humanos.

Pois muito bem, "eu quero seu dinheiro e não vc" poderia ser contestado em favor de algo mais cínico e lógico como "eu quero seu dinheiro e, portanto, vc". Mas o pior que no assunto de que quero falar não se trata nem disso.

Resumidamente: franceses, americanos, suecos, chineses, suíços, espanhois, belgas querem morango, carne, tabaco, iPhones, ouro, diamantes a preço de banana; passaram séculos viajando o mundo todo, desmantelando uma cultura aqui, promovendo uma matança ou guerrinha suja ali, sugando um país acolá... Inventaram meios de transporte cada vez mais rápidos pra facilitar o trânsito de pessoas (ou talvez principalmente de coisas...); começaram a deixar entrar em seus reinos pessoas ávidas para fazer aquele trabalho subalterno que seus súditos não suportam (ou suportavam) fazer... e agora, depois de terem convidado todos pra festa, querem acabar com a diversão?

A bandeira aparente das extremas direitas no mundo parece ser exatamente essa "queremos que todos sejam felizes, sobretudo se forem nos vendendo seus produtos e serviços quase de graça; mas cada um no seu quadrado"... Mais ou menos uma globalização medieval, uma abertura fechada: coisas e dinheiro entram, gente, não.

Breivik, Le Pen (pai e filha), Bush são sacerdotes dessa nova religião da xenofobia. São capazes de esbravejar e guerrear por petróleo mais barato, telefones, roupas e comida quase de graça, mesmo que produzidos por crianças ou trabalhadores à beira da estafa e do suicídio, mas não aceitam a livre circulação de pessoas, mais precisamente daquelas pessoas que descendem daquelas outras pessoas que tiveram seus países invadidos no passado para dar lugar àquilo que se chamava de colonização e/ou processo civilizatório.

Pois muito bem: ei-los aí: marroquinos, líbios, sul-americanos, argelinos, mexicanos - todos loucos pra serem as pessoas bem-nutridas e felizes da Declaração dos Direitos Humanos, cada um do seu jeito, cada um segundo a sua cultura, cruzando com perigo de morte as mesmas fronteiras e mares que há séculos eram cruzados no caminho inverso pra promover a pilhagem europeia aprovada por deuses, reis e sacerdotes. Como se diz hoje (e agora vou ser bem cínico), chupem essa.

Pelo que entendi do que alguns experts no assunto dizem, a alternativa à globalização é a adoção de um sistema hi-tech de feudos à la Idade Média - cidades conectadas umas às outras de forma clean e segura, com pessoas sorridentes com seus smartphones e calorias por dia asseguradas. No entanto sabemos que essas utopias esbarram em realidades bem adversas, e mais do que nessas realidades adversas, no desinteresse governamental geral em resolver seriamente problemas como a fome, as doenças e a ignorância - já que essas continuam a ser úteis, de alguma forma, a algumas pessoas e grupos.

O mais provável é uma Nova Idade Média mesmo, onde todos os países se isolam, fingindo viver num mundo mais saudável e evoluído do que o de um século atrás, enquanto que a cena atemporal de uma criança pedindo comida em algum país pobre do mundo continua a ser usada quando convém. Uma Nova Idade Média com direito a suas novas versões de cruzadas religiosas: as fundamentalistas, que no seu momento oportuno, começariam com queimas do alcorão por um pastor louco americano ou da bíblia por seus equivalentes muçulmanos... e já teríamos aí a justificativa pra uma guerra: que por sua vez resultaria em mais avanço tecnológico e petróleo, ou água... Que por sua vez resultaria em um crescimento econômico de uma década, seguido por uma crise financeira de outra década... e assim sucessivamente... até que alguém se toque e comece uma revolução de verdade, sem muito drama e falsas palavras romantizadas como "paz" e "liberdade" e pior ainda, "deus".

quarta-feira, 14 de março de 2012

A dança


Harmonia: continuidade entre duas diferenças, ponte de um abismo ao outro. Harmonia como o jeito de ser do mar: do abismo escuro, subindo pelas montanhas submersas até à planície da terra seca continental, a água flui tão contínua que da pedra da crosta fez areia molhada.

Harmonia de dança equilibrada e que não pára. Coordenação exata e pura, de pássaros evoluindo em nuvem no azul do céu, ou dos cardumes de peixes em revolução de fuga no azul do mar.

Estar em conformidade – mas nos conformes não pensados, não ordenados, não exigidos, livres como se é livre sem pensar muito bem. Conformemente sentir de acordo com o momento de fora encadeado com o de dentro como se não existissem mais de tão unidos nem esse dentro nem esse fora.

Assim que eu queria estar. É assim que eu estou no meio de Tudo sem querer, mesmo que não saiba e não queira.

Então o que falta é saber.

É saber que sem saber, eu sou com.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Porque ele só fala disso?

Cena 1:

Ela sempre quis ser médica, e ele, advogado. Se conheceram por acaso numa festa e a pele morena dele e a pele branca dela se atraíram de um jeito que dois meses depois, no auge de uma primeira fase de descobertas recíprocas, não se descolavam e se aqueciam em suor que parecia prendê-los um ao outro como dois bichos. Não era lá aquele casal bonito, mas muito simpáticos e contentes, e tão conectados, que amigos seus solteiros se sentiam ou muito mal ou muito bem em sua presença.

Ele tinha um pai que possuía dinheiro mas que exigia que os filhos trabalhassem, e ele trabalhava. Ela não tinha pai e ajudava a mãe em casa com o dinheiro dos seus sucessivos estágios e, no fim, com seu emprego público. Ela era brilhante, ele, esforçado... O retrato perfeito de mais um casal semi-perfeito, candidatos ótimos para uma felicidade de duração possivelmente indefinida...

Pois muito bem.

Numa linda noite chuvosa, num restaurante que frequentavam desde os tempos de faculdade, comemoravam dois anos de uma história bonita. Ele estava barbeado e seu perfume deixava a menina tonta e despudoradamente querendo... Ele era a paixão em pessoa. Ela o via correndo com os filhos num jardim verde. Olhos brilhantes e o coração cheio daquela segurança boa de saber que alguém te quer pra quase sempre (ou pra sempre, como reza o romantismo pop), deram-se as mãos num gesto... lindo.

Foram repreendidos por um garçom de bigode, pois ali era um bar de família.

Cena 2

Meio contra a vontade das respectivas famílias, foram morar juntos aos 18. Viveram uma história um tanto turbulenta em que ciúmes criavam cenas que iam do engraçado ao quase-trágico. Mas se amavam, isso via-se mesmo nas palavras mais duras usadas mais para se defender de uma solidão que não tinha na verdade probabilidade nenhuma de acontecer, tal era a vontade de serem mais do que um.

Ela era a que não valorizava papeis e suas frases legais pomposas. Ele queria alianças e rituais. Foram meses inteiros de discussão até ela ver que o papel tinha sim o seu valor, não em si, mas no contexto das coisas: mais ou menos como uma certidão de nascimento para uma criança: nenhum hospital ou escola iria duvidar de que ali havia uma criança de verdade, existente e respirando de vida, mas nos sistemas da república e de seus elementos burocráticos, papeis eram necessários pra se garantir algumas facilidades merecidas pra quem decide não morrer sozinho.

Pois não é que foram impedidos de se casar no papel como todo mundo porque não sei quem tinha escrito, há uns 3000 anos, que duas pessoas adultas só podiam se amar, e portanto, casar-se, se tivessem filhos e mais algumas características específicas?!

"Mas aqui não é o Irã!", argumentava ele para amigos e paredes, "O Brasil não é um país Mitraico (religião dos que seguem Mitra, o salvador da Igreja de Mitra, cujos sacerdotes são conhecidos por, há alguns séculos, terem matado milhares de pessoas para salvá-las, flertarem com regimes eugenistas e ditatoriais e abusarem sexualmente de crianças confiadas por seus pais à salvação garantida pela Igreja...)!"...

Foi aí que ela passou a querer se casar de qualquer jeito.

Cena 3

- Ah, já entendi, ele vai dizer que com os homossexuais é a mesma coisa e que eles sofrem muito... Mas não é a mesma coisa. Existe uma ordem no mundo, existe um modelo a ser seguido. Jesus ama tudo e todos, mas odeio o pecado e...

Cena 4

"Eu não vou enlouquecer, eu não vou enlouquecer, eu não vou enlouquecer..."