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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Não toque no meu deus


Eu quero acreditar que para apenas 0,0000025 das duas ou três pessoas que me leem muçulmanos são pessoas morenas com turbante na cabeça, que falam uma língua cheia de Ls e Rs e que vivem empunhando rifles sob um sol escaldante...

Diante do que se vê hoje na mídia, de fato é difícil visualizar a Era de Ouro árabe, tão admirada por pessoas como Jorge Luis Borges, quando a Europa era um continente primitivo e sujo que queimava pessoas, enquanto que os muçulmanos possuíam obras filosóficas clássicas, e tinham azulejos limpos, e produziam grandes nomes da medicina e na química. As Mil e Uma Noites, esse clássico incrivelmente belo e complexo, que mostra um universo no qual, mesmo sem saber, muitos de nós já vivemos, são praticamente impossíveis de evocar ao vermos homens-bombas explodindo, ou monstros disfarçados de manifestantes  religiosos estuprando um embaixador ameriano antes de assassiná-lo...

Uma frase como “nem sempre os deuses existiram” seria bombástica demais e inútil em relação ao que queria dizer; outra como “os deuses nunca exigiram tanta dor e morte” também seria inútil, além de mentirosa. Então passemos pra outra: “Que deuses são esses?”

No mesmo instante, haveria certamente quem protestasse dizendo: “Questione os que seguem esses deuses, e não os próprios deuses...”. Pois muto bem, ao invés dos deuses questionemos os crentes  (até porque estes são os únicos aos quais se têm acesso imediato... pelo menos em tese...)

Um suposto filme, chamado A Inocência dos Muçulmanos, teve um trailer de 15 minutos ressuscitado no youtube (sim, pois o vídeo se encontrava lá desde junho) há duas semanas: conta a história de um Maomé explorador de menores e violento, bem longe da imagem do profeta amado e adorado por mais de um bilhão de pessoas. Todos vimos na mídia que isso foi o bastante pra inflamar uma infitamente pequena parcela dessa população, mas suficiente pra fazer um bom estrago em vários países do mundo. Eu, pessoalmente, acompanhei os comentários online que as pessoas que acabavam de ver o vídeo faziam na página do youtube, a maioria extremista dos dois lados: americanos ignorantes e muçulmanos tão ignorantes quanto: as palavras de ordem eram de puro e surpreendente ódio, uma incompreensão mútua que num primeiro momento dava pena, depois medo e depois um certo desespero...

Intocáveis 2: "Não pode debochar!"*
*Tradução livre, leve e solta
Dias depois, uma publicação satírica francesa, Charlie Hebdo (por favor, não pronunciem, como os jornalistas daquele triste canal de comédia política, Globo News... o correto é char-lí heb-dô), publica, meio ineptamente, uma charge retratando o profeta Maomé... E isso pra quê? Pra jogar lenha na fogueira? Essa é a primeira hipótese, que foi a minha. Eles queriam apenas vender mais exemplares, pois são, como os próprios declararam ao Le Monde, gente de extrema esquerda que apenas procuram fazer algo engraçado. Pois sim. E me pareceram sinceros, apesar de um pouco inconsequentes. E o que fazemos com gente inconsequente? Estupramos, prendemos e queimamos, num é não?

Eis o ponto: se os árabes já representaram o que havia de mais avançado no passado, muita coisa aconteceu entre os séculos XIII e XXI, muita coisa mesmo, inclusive petróleo, Estados Unidos, Rússia e cia, com muita dose de ganância, cinismo, impiedade, racismo... Não se pode esquecer o papel de Israel na equação toda: não é a primeira vez que se vê na história o perseguido se tornar o perseguidor...

Enfim, muita água correu e o que temos é o que mais vemos: violência, extremismo... mesmo que praticados por uma minoria: sim, pois é uma minoria que queima carros, que degola cidadãos, que oprime seus pares. Mas é uma minoria organizada e articulada, que sabe cultivar e canalizar ódios e rancores seculares na hora certa: e é isso o que acontece agora. No mundo árabe, é bom lembrar que nem todo mundo tem acesso à mesma quantidade de informação a que temos aqui num país como o Brasil: o trailer do filme A Inocência dos Muçulmanos, que mais parece um episódio tosco do Chaves, tirado do contexto e propagado em tom de ódio, foi muito bem utilizado pra incendiar multidões de homens e mulheres que saíram às ruas gritando palavras de ordem de uma simplicidade absurda: ABAIXO A AMÉRICA...

Voltando aos editores e desenhistas do jornal francês Charlie Hebdo: há pouco tempo atrás, minha postura pessoal seria a de condená-los por sua inconsequência e balançar a cabeça até com raiva contra esses doidos irresponsáveis que só querem ver o circo pegar fogo... Mas, sinceramente, mudei de ideia.

Fui a Paris há dois meses e as coisas que vi lá me disseram coisas: me disseram que árabes e muçulmanos são pessoas respeitáveis e que têm todo o direito de abandonarem seus países arrasados pela cobiça e ingerência das antigas metrópoles, para virem viver nos países europeus... Mas tb entendi que um eterno ressentimento não pode servir de justificativa ou explicação válida permanente para todo tipo de reação ou ação destrutiva por parte de grupos oprimidos, com ou sem aspas.

Sim, lá eu vi ou senti um certo racismo no ar entre os franceses “de verdade” e os de origem árabe (mútuo, por falar nisso). Senti sim que a igualdade no país da declaração dos direitos humanos é ainda uma utopia. Mas tb senti outra coisa: há uma “vontade de não sair do lugar”, um desejo de “ser como somos e ponto final” que perpassa o ânimo desses mesmos oprimidos (sem aspas nenhumas). A postura de “sou assim e vc tem que me respeitar mesmo que isso inclua machucar pessoas de vez em quando” seria mais um abuso do direito a ser quem se é do que algo que realmente se grita nas ruas de Paris, sobretudo nas da periferia. Mas é esse abuso do direito a ser que é usado para justificar mortos e feridos nos protestos que vemos no mundo todo; é esse abuso do direito de ser que quer calar a boca dos desenhistas e editores do Charlie Hebdo; é esse mesmo abuso que faz com que uma instituição muçulmana chamada OIC queira que a ONU inclua na declaração dos direitos humanos a punição à blasfêmia...

Blasfêmia, punição, deuses... Isso lembra alguma coisa? Inquisição, Idade Média...?

Pois é. Respeitar toda e qualquer religião deve sim ser dever de todo cidadão, brasileiro, americano, etc. Mas temos que escolher entre os modos que podem ser utilizados para se responder a um ato de desrespeito: na maioria dos países ocidentais, trata-se de procurar um advogado e entrar com um processo. Este parece ser um modo adequado para a maneira que a nossa constituição brasileira nos propõe viver: cidadãos pluralmente constituídos vivendo em paz e harmonia (que toquem harpas...). Porém, o Extremist Arabian Way of Punishment não condiz com o que se pensa ser mais aceitável, e por isso, talvez um pouco mais de visão crítica sobre as manifestações induzidas pelos extremistas muçulmanos seja necessária.

Tratar os revoltosos religosos como crianças medievais que podem tacar fogo em tudo e que devem ser acariciadas em vez de punidas parece ser tão eficaz quanto condená-los de maneira sumária e intolerante, como o fazem evangélicos fundamentalistas americanos e brasileiros. Estes, aliás, se julgam bem acima daqueles, deplorando o ódio dos homens queimados de sol de rifles na mão... Mas olhe em volta, ou melhor ainda, olhe pra televisão: os homens de terno diante de multidões sustentam ideias que são muito parecidas com as dos extremistas muçulmanos quando falam das religiões dos outros: “Não podemos deixar ninguém tocar o nosso deus”, “Nossa fé é a única e verdadeira”, “Estamos em guerra contra os ímpios”, “Nosso deus não admite outros deuses”... É como se víssemos um espelho... mas há uma diferença: aqui neste país, como na França ou nos EUA, a lei não é religiosa pq existe um estado laico. E isso faz toda diferença. Por mais que um Malafaia da vida declare em alto e bom som que “os católicos deveriam descer o cacete nos gays”, isso fica apenas nos seus sonhos, em que provavelmente ele mesmo faria isso com trajes de sadomasoquismo... Mas (por enquanto) ele não ousaria pôr suas ações de amor ao próximo em prática.

E porque seria aceitável que muçulmanos, que creem num deus muito parecido, senão o mesmo, de cristãos e judeus, façam lá o que Malafaia quer fazer aqui?

Mesmo que os desenhistas franceses tenham de fato jogado lenha na fogueira, é bom saber que a fogueira queimaria de qualquer jeito: parece que enquanto Ocidente e mundo árabe não encontrarem um caminho que resulte numa maior intercompreensão, sempre haverá pirômanos prontos pra matar seus compatriotas em nome dos deuses, a fim de manter um pouco de poder.

O que queria dizer mesmo é que: deuses podem até ser intocáveis, mas os que causam dor e morte em seus nomes, não. E estou falando tanto da mulher-bomba que explodiu há dois dias quanto do jovem cristão presente na Marcha da Família que jogou uma lata de refrigerante na cabeça de uma moça homossexual que passava próximo...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Histórias únicas ou Viseiras de burro

Conhecer o mundo e suas coisas é conhecer suas histórias. Quando crianças ouvimos as histórias contadas pelos adultos, que as utilizam pra nos explicar o que vemos e não entendemos, como a chuva, o trovão, a morte. A curiosidade da criança faz com que absorvamos gulosamente tudo, e que tudo seja marcante no nosso modo de pensar: assim é que eu jurava que os trovões ocorriam quando duas nuvens se chocavam com força no céu nublado... Isso até que nos livros de ciência vi que a história que a minha mãe, mulher muito inteligente e criativa, contava não correspondia bem ao que chamamos de realidade. Mas no momento em que me foi dito que as nuvens se chocavam e produziam sons terríveis, aquilo fez sentido; tanto é que na minha cabeça aquela história se tinha incorporado como conhecimento válido sobre o mundo. A sorte foi que nunca precisei apresentar um trabalho científico sobre as tempestades antes de ter acesso à informação cientificamente correta...
Houve um tempo em que a chuva já foi a urina ou a saliva de Deus, o sexo já foi uma mera troca de sementes via beijo... Hoje, é óbvio que tais visões simplistas não cabem, por mais poéticas e ternas que sejam. Até o momento em que elas eram a única história conhecida, eeu não precisava me confrontar com realidades diferentes das do lar, onde havia conforto e segurança, não houve problema...

A questão é quando esse sistema de conhecimento baseado em “histórias únicas” prevalece e prossegue durante toda a vida de um ser humano. A chuva como saliva de Deus da criança pode, no adulto, se transformar em fonte de desentendimento, distância, estupidez...

Por exemplo, falemos dos estereótipos, que são versões adultas desse fenômeno da “história única”: todos nós já fizemos uso das simplificações extremas que são os estereótipos: os franceses não tomam banho, os africanos são esfomeados, gays são pervertidos, mulheres são frágeis, e por aí vai. É perfeitamente normal que se visite uma cidade ou país que não se conhece se utilizando de alguma informação ou fragmentos de informação a que se tenha tido acesso alguma vez. Ir a Paris achando que os franceses são contraditoriamente elegantes e fedorentos pode ser até aceitável; mas estar diante de pessoas educadas e ultra-limpas e ainda assim achar que as mesmas estão sujas por debaixo das roupas porque foi assim que se aprendeu, configura um certo nível de esquizofrenia, não?

Há exemplos menos cômicos do que é ser prisioneiro da viseira da burrice dos estereótipos, da versão única de uma história sobre um povo ou indivíduo: conversando com uma colega cabo-verdiana nos tempos de faculdade, ela falava do país dela com orgulho e também de como era irritante ter que explicar a pessoas curiosas e ingenuamente maldosas (ou cruelmente ingênuas) que nunca tinha montado numa girada ou passado fome ou tido um chimpanzé como animal de estimação... ou que não, não tinha parentes nem amigos que haviam morrido de aids... As lágrimas dela diziam o quanto de dor pode causar um coice de uma pessoa que se satisfaz apenas com o que ouviu falar ou o que disse um certo livro sobre tal coisa.

Pessoas pobres são ignorantes, pessoas ricas são “esclarecidas”... – os estereótipos são eficazes a tal ponto que podem simplesmente cegar diante do óbvio e ululante, diante do que está bem à nossa frente. Eles podam pessoas e grupos para caberem em pequenas gavetas que aprendemos a arrumar e organizar nos tempos de criança. A surpresa nos olhos ao ver uma mulher dirigindo bem, o “mas” na frase “é gay, mas é gente boa”, a incredulidade ao ver um africano com pós-doutorado – tudo isso são os relinchos do jumento que se assusta com tudo o que não esteja no campo de visão abarcado pelas suas viseiras... Ainda que relinchos possam machucar, seriam problemas menores se no mundo humano correspodedessem apenas a vocalizações desconexas... mas sabemos que seres humanos são bons em transformar toda e qualquer coisa em motivo para guerras e violência, e aí temos personagens malditos como o que costumo citar nos posts de protesto deste blog.

Se os jumentos com viseira dificilmente conseguem se livras das mesmas por meios próprios, é claríssimo que com seres humanos a coisa é diferente.

Ignorância mata, causa impotência, câncer e etc, mas tem cura. E essa cura passa pela curiosidade, ou menos exigentemente, pela não aceitação do que se ouviu uma vez ou de uma fonte apenas. Há vários níveis de “histórias únicas”: desde aquelas que dividem as pessoas em cristãos, gente do bem e pagãos, gente esquisita; até aquelas ideias do senhor chamado Freud, que por mais que não tenham nenhuma ou pouca base na realidade, seguem como revelação de um semideus ou de um iluminado...

Aceitar uma única versão sobre um fato, uma pessoa, um povo, uma história pode ser cômodo, pode ser o que certo grupo espera de vc. Mas se um coice seu doer em alguém, saiba que um dia o de alguém vai doer em vc também... De modo que pra evitar essas metáforas de jumentos, que tal deixar a preguiça de lado e, no mínimo, ler aquele outro jornal, consultar aquele outro autor, ou conversar com aquele outro amigo, antes de ultrassimplificar tudo e meter na gaveta do “Caso encerrado: eu sei que a vida é assim”?

P.S.: O que disse acima é praticamente uma recombinação dos elementos que Chimamanda Adichie brilhantemente apresentou numa das melhores conferências TED que já vi. Só não vejam se as viseiras não deixarem: http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html

sábado, 30 de junho de 2012

A vida de uma pessoa


A pessoa acorda.
A pessoa tira as remelas dos olhos.
A pessoa pensa por segundos profundos que a água gelada que enche o copo pode ter sido bebida um dia por algum filósofo do passado... (Momento "somos pó de estrelas" e etc...)
A pessoa toma o café pensando no andamento do dia.
A pessoa sai para trabalhar e lamenta as horas perdidas que muita gente vai gastar no ônibus ou no carro, enquanto que aqueles passarinhos são tão livres (a pessoa tem rasgos poéticos esparsos durante o dia de vez em quando).
A pessoa dá bom dia e recebe bom dia da metade das outras pessoas.
A pessoa trabalha.
A pessoa sorri.
A pessoa liga para a pessoa amada e se sente menos estressada.
A pessoa pensa na vida dali a cinco anos durante o almoço (antes a pessoa prepara o almoço).
A pessoa volta ao trabalho.
A pessoa chega em casa feliz por ter cumprido 80% dos deveres pessoais.
A pessoa faz faxina segundo as circunstâncias exijam.
A pessoa sai com amigos no fim de semana.
A pessoa dá o lugar pra velhinha no ônibus e dá a vez pro apressado no cruzamento.
A pessoa não joga coco na praia nem lixo no chão.
A pessoa se espanta com os preços no supermercado e maldiz o governo por pegar 37% do seu dinheiro todo mês.
A pessoa espirra e se esforça pra que o espirro não atinja ninguém.
A pessoa dá descarga sempre.
A pessoa sorri a um bebê sorridente nos braços de uma mãe e se sente inexplicavelmente feliz.
A pessoa se lembra da infância.
A pessoa se lembra das pessoas que perdeu.
A pessoa dorme de uma vez e acorda tarde.
A pessoa tem momentos de vingança imaginária onde sangue e carne queimam.
A pessoa pensa bem, respira fundo, xinga mentalmente e vai viver a vida e etc.
A pessoa ouve piadinhas.
A pessoa vê outras pessoas dizendo que a pessoa vai pro inferno.
A pessoa fica possessa de ódio mas respira porque senão sai endoidando por aí.
A pessoa chega cansada em casa.
A pessoa liga a TV ou o computador e outras pessoas que se dizem santas vilipendiam a vida da pessoa.
A pessoa se indigna e pede paciência aos deuses.
A pessoa de vez em quando é esfaqueada.
A pessoa protesta... e outras pessoas protestam contra a pessoa pq a pessoa quer ser como qualquer pessoa.
A pessoa de vez em quando recebe socos na cara.
A pessoa fica com medo.
Mas a pessoa acha um absurdo e jura não ficar quieta.
Outras pessoas acham um absurdo a pessoa achar um absurdo ser esfaqueada de vez em quando por ser a pessoa mesma, e fazem marchas contras pessoas que querem se casar com pessoas.
As pessoa pira.
A pessoa quer mandar todo mundo pra... pessoa que o pariu.
Mas a pessoa respira e prefere fazer abaixo-assinados e votar nas pessoas certas.
A pessoa mais uma vez, em algum lugar do Brasil, leva uma lâmpada fluorescente na cara pq estava de mãos dadas com outra pessoa.
A pessoa tem medo.
A pessoa se pergunta, sem entender, pq é tão difícil para tantas pessoas aceitar outras pessoas do jeito que elas são, já que ninguém morreu, ninguém perdeu, ninguém roubou.
A pessoa se pergunta: PORQUE?
A pessoa é um assassino?
A pessoa é um ladrão?
A pessoa é um político corrupto?
A pessoa é um padre pedófilo?
A pessoa é um pastor que lidera igrejas de pessoas muito pobres mas que usa rolex e tem vários carros caros?
A pessoa sai de casa em casa perguntando o que as pessoas fazem a dois ou três ou quatro na cama?
A pessoa é Jesus Cristo pra levar na boa tentar ser uma boa pessoa e todo dia ser tratada como sub-pessoa?
A pessoa é louca?

NÃO, diz a pessoa.

A pessoa é gay.

E..?

A pessoa é simplesmente uma PESSOA, *ORRA!



sábado, 26 de novembro de 2011

A vertigem da burrice

Não, não se trata de, como diria um Bóris Casoy acadêmico "Ele, do alto dos seus textículos...", prescrever um manual de identificação de pessoas burras e não-burras. Ousando me auto-citar, num post anterior disse coisas que acho que não são consideráveis completamente idiotas sobre saber e não-saber, e sobre as questões éticas e existenciais que isso envolve.

Na verdade, é que o número 7 000 000 000 me comove. Me comove mais pensar que há dez anos era 6 000 000 000. Pra ser mais exato me dá vertigem: eu, preocupado com a minha limitada e complexa existência, e infinitas pessoas por aí com a mesma preocupação, inquietações, confabulações, etc, etc. Realizar que pensamentos como "eu quero", "eu amo", "eu odeio", "tô de saco cheio", "tenho razão", "vão se las*ar", "Gozei", "Não gozei", "Sou *oda", "Não sou f*da" e outras agruras e doçuras humanas, se repetem bilhões de vezes todos os dias, todos os minutos e todos os segundos, é algo que cansa.

Borges disse alguma coisa como que os espelhos e a cópula são abomináveis porque multiplicam a tragédia humana (as palavras não são exatamente essas). Comparar espelhos à cópula já é uma coisa incrível; o conteúdo da afirmação revela um sentimento que pode ir de uma misantropia básica a um ecologismo blasé. Nos nossos dias penso que nos sentimos forçados a entender Borges - talvez não sua suposta e aparente misantropia, mas é que, ecologismos histéricos à parte, essa história de que onde cabem cinco bocas de meninos europeus sorridentes cabem 7 bilhões só pode resultar em *utaria mesmo.

Aí vc pensa na variedade de seres humanos sobre a face deste planeta. Os felizes, os patéticos, os genocidas, os religiosos, os não-religiosos, os cínicos, os doces, os ingênuos, os famintos, os obesos, enfim - toda aquela miríade de caracteres dos quais cada um de nós deve conhecer a milésima parte. Antes de lavar os pratos (ou justamente numa tentativa de evasão a isso) a pessoa, reflexiva e com uma nuvem negra na cabeça, pensa: como o ser humano X (Malafaia, Bush, Serra, Xuxa, Bashar Al-Assad, Fulano), num mundo já nada fácil como esse, pode ser tão cretino/estúpido/arrogante, em suma, MAU, enquanto que eu sou tão legal/equilibrado/simpático, em suma, BOM? 

Aí então, de dentro da nuvem negra sai um demônio que por acaso tem auréola e asas de anjo acompanhados de cascos de bode e rabo de serpente, dizendo: "Jura? Jura mesmo?" Sem a necessidade de o anjo-demônio dizer mais nada, repito a mim mesmo a frase anterior, trocando vítimas por acusados... e em seguida me sinto terapeuticamente menos BURRO.

Mas também não é sobre quem é *oda que estou pensando. É sobre deixar os outros em paz. É sério: homens sábios em todos os tempos disseram coisas lindas e profundas, dentre as quais, algumas eu considero, senão meus mandamentos pessoais, minhas sugestões éticas pessoais. "Não matarás" e cia têm seu valor; essa não é a questão. Um judeu (ou um muçulmano) quer matar um bode na porta de casa pra receber uma visita ou quer matar duas rolinhas e dois pombinhos pra purificar uma mulher menstruada? - eu seria capaz de gravar isso e publicar no youtube achando super digno e divertido. A Dona Maria X ou o seu Zé Y querem passar a noite na igreja gritando e no dia seguinte entregar todo o seu salário mínimo nas mãos de um pastor, e ainda me chamar de coisas se eu ousar fazer algum comentário? - tudo bem, seria deselegante, mas minha vida continua. Jovem rapaz XYZ ou moça bonitinha querem se casar pra ter seus filhos, dar-lhes nomes estranhos e viverem pseudamente felizes para sempre? - eu mesmo penso que viverei assim (com algumas adaptações técnicas, claro).

Mas então, eu, mão no queixo, talvez sentado na privada, me perguntaria, singelamente perguntar-me-ia: com que direitos, por acaso, o judeu, ou a dona Maria X, ou o jevem rapaz XYZ vão, num belo dia de sol, saírem da sua casa, pra bater na minha porta (isso é uma metáfora - pode ser um passeio no shopping, na praia, na rua, uma declaração na TV, no congresso, etc) e dizer que: eu vou pro inferno OU por uma questão semântica a pessoa que eu amo e eu não formamos um casal OU eu deveria ter vergonha na cara OU eu sou uma pessoa doente OU eu posso até ser uma pessoa legal mas há um vazio na minha vida OU eu sou antinatural OU etc...? Pq q EU sairia da minha casa pedindo pra averiguar o tamanho e profundidade dos umbigos dos meus vizinhos, amigos, inimigos e colegas e ver se eles são iguais ao meu? Pq eu seria contra que o menino HXZ vestisse uma blusa de bolinhas amarelas ou gostasse de introduzir em certos orifícios (como a boca) pepinos ou bombons de café? O QUE EU (na minha necessidade urgente de lavar uma tonelada de roupa e rever minha família em Campina Grande) TERIA A VER COM ISSO?

Isso é clichê - eu sei, eu sei... N'importe quoi.

 Então, pra encerrar e parar de dizer mais do mesmo, acho, apenas acho, que se AMAR AO PRÓXIMO é uma frase que, apesar de simples, dá margem a tantas interpretações (que incluem até MATAR e INFERNIZAR), quem não consegue pô-la em prática, poderia tentar essa aqui ó: DEIXAR O PRÓXIMO EM PAZ, QUIETO, NO CANTO DELE, ASSIM COMO EU FICO EM PAZ E QUIETO NO MEU.

Não é lindo? Não seria bonito se todos seguissem esse mandamento? Estou quase certo de que beija-flores e borboletas pousariam todo dia na minha janela e as pessoas seriam mais felizes, menos impotentes biográfica e sexualmente, se estressariam menos, teriam mais tempo de trabalhar suas limitações em vez de tentar derrubar os outros... enfim, contradizendo o que disse no primeiro parágrafo, DEIXANDO OS OUTROS EM PAZ, o número de pessoas consideradas burras iria diminuir drasticamente.


Amém.







domingo, 18 de setembro de 2011

Como tornar-se um homofóbico de carteirinha

Mais uma no esquema psicologia reversa, método psico-bio-histórico-sócio-pato-pedagógico de ser hipócrita ao contrário com pretensões de autoconhecimento indireto e ao mesmo tempo crítica ácida e tresloucada...

Que seja, então:

Ao contrário do que se pensa, se tornar um homofóbico de carteirinha não é das coisas mais simples. O processo é longo e cheio de agruras e peripécias. Mas com as minhas dicas, a via crucis que resulta na formação de uma personalidade conflituosa, contraditória e belicosa tornar-se-á certamente mais fácil de se entender, aprender e apreender. Allons-y.

Primeira coisa: lembre-se da sua infância. Focalize na imagem daquele menino que falava fino (como todos os outros meninos da escola aliás) e que todos chamavam de gayzinho; lembre-se de como ele ficava só, ou então acompanhado apenas pra ser esculachado pelos outros colegas, no meio dos quais vc entrava, já que só havia duas possibilidades, como seu pai mesmo tinha ensinado: ou é homem ou é mulher, ou é branco ou é preto, ou é deus ou o diabo – se vc não é macho, é bichinha, e uma bichinha na família, nunca! Ainda se lembre da cara de medo do coleguinha de voz fina e de como seria um pesadelo ser como ele, fraco, perseguido e estranho!

 Lembre daquele rapazinho na quinta série que só tirava nota boa, que era o queridinho dos professores – e era bicha. Lembre que mesmo quando vc estudou até altas horas da noite, ele ainda assim ficou em primeiro lugar no ranking imaginário de melhores notas: aquele VIADO!

Mas talvez vc tenha sido uma criança religiosa que estudou em escolas religiosas. Então esconda no fundo da sua memória aquele dia em que o meninozinho bonitinho passou a aula toda olhando pra vc e vc sem querer sonhou com ele fazendo brincadeiras que os seus amigos machões não considerariam muito másculas. Apague da sua memória ou então simplesmente reformule: “aquele viadinho nojento me contaminou com o seu pecado, etc, através de forças mentais, blá, blá, blá” – e lembre-se de como só possuía duas armas pra lutar contra essas forças demoníacas: ou deus ou um murro na cara. Se vc escolheu deus, sabe que hoje vc é um ardoroso defensor da moral e da vergonha na cara – pois “se eu, quando adolescente, consegui vencer as tentações abjetas da carne enviadas pelo Cão através do viadinho, então todos os homossexuais também conseguem! O fato de às vezes eu olhar durante mais de cinco segundos com desejo pros glúteos de um homem, e de vez em quando, ter um ou outro sonho com pessoas do mesmo sexo, não quer dizer nada! Apenas que o diabo sempre tenta as pessoas de bem e que eu estou no caminho certo!”.
Já que homossexuais são homens que querem ser mulheres, ao menor sinal, nem que seja o menor e quase imperceptível, e mesmo imaginado, sinal de afeminamento em algum amigo ou colega seu, solte uma expressão qualquer que o acuse explicitamente, fazendo sempre menção ao ato sexual, já que homossexuais são pessoas que fazem sexo e apenas isso, mesmo que eles trabalhem, sejam pessoas simpáticas e legais – mas são gays: tão errados quanto ladrões (embora gays não roubem pessoas), tão nocivos quanto viciados em drogas (mesmo que não haja vício nenhum nem façam mal nem a si nem a ninguém)... enfim, não seja complacente – um amigo que desmunheca na sua frente hoje sem vc falar nada, é o homossexual de amanhã que será mais um pra atazanar seu juízo e sua sexualidade correta e que corre tantos perigos no dia-a-dia!

Outra regra de ouro para se tornar um homofóbico exemplar: mesmo se vc, por falta de rigor, por acaso ou por desleixo mesmo, for menos bem sucedido do que um homossexual no trabalho, nunca aceite tal coisa, e considere esse revés algo absurdo e inadmissível! “Eu, passado pra trás por um viado ou uma lésbica nojenta? Não!” Se vc não puder torturá-lo no ambiente de trabalho com piadinhas e olhares de escárnio e ódio, faça isso na sua igreja ou no fim de semana: se vc for menor de idade, junte uns amigos e altas horas da noite bata com uma lâmpada fluorescente no rosto de um viadinho que estiver passando na esquina; se vc for de maior, faça a mesma coisa, mas com máscaras; com os irmãos da igreja, organize uma “marcha pela família” levando 9 faixas com as palavras inferno, ódio e pecador, e uma com a palavra amor.

Se vc tiver perdido sua mulher pra outra mulher, não vá conversar com um amigo bom e legal ou com um psicólogo – nem tente conhecer outra; antes, tente acabar com a vida da ex, xingue todas as lésbicas que vc vir na rua e mais uma vez, cogite a idéia de criar um grupo de Moralização Violenta da Sociedade Brasileira. As marchas pela família heterossexual e fundamentalista também vão fazer vc se sentir menos enojado pelo casamento desfeito por causa do pecado e da perversão homossexuais.

E por mais que algumas religiões e pessoas sábias digam que devemos entender e aceitar o próximo, faça de tudo pra se lembrar daquilo que duas pessoas do mesmo sexo fazem na cama! É nojento! É inaceitável! É sujo! Como entender essas pessoas que fazem tudo do que vc religiosamente foge, ou pq odeia ou pq tem medo de querer fazer também? Não, compreensão tem limite, amor ao próximo também. Mesmo que a vida sexual seja algo que diga respeito a cada um, o que homossexuais fazem é de domínio público! Porquê? Vc não precisa saber nem explicar, é assim!

Outra regra: homossexuais não são como nós, pessoas normais e equilibradas: eles, como são dominados pelo pecado, têm uma alma resistente, não podem ser feridos psicologicamente – como poderiam, se escolheram deliberadamente fazer imundícies com os seus corpos? Por isso a ênfase na violência física – a dor um dia há de abrir a mente dessas pessoas para o que é certo.

E mais: mesmo que 99% dos assassinos, estupradores, ladrões, políticos corruptos, viciados em drogas, pessoas deprimidas e etc, sejam heterossexuais, todos sabem que homossexuais são de modo inato inclinados  ao crime e a tudo o que é ruim – ainda que o padre da igreja seja pedófilo, a vizinha ultraconservadora seja alcoólatra e o pastor tenha tido um casinho com uma menina muito novinha, são os homossexuais que são os grandes pecadores!

Se vc for mulher, não tolere que todos os amigos homossexuais de suas amigas tenham namorado e até mesmo maridos (é o fim do mundo!) se vc, que é uma mulher de verdade, bonita, meio descuidada, mas MULHER de verdade, e não uma bicha, não tem nem um fica! Isso não pode acontecer, a ordem correta do mundo não é essa! E mais: grite pra todos a verdade óbvia e ululante: que todos os males do amor de que as mulheres sofrem são culpa dos homossexuais! Solução: piadas e fofocas no trabalho, confusão na rua com viados descaradamente felizes, mais marchas pela família, etc, etc.

Pra finalizar, vc não será um homofóbico ou homofóbica eficiente se não souber contrabalancear um volume enorme de pseudo-argumentos religiosos com uma dose de argumentos pseudo-científicos divulgados por sociedades ligadas ao Vaticano, por exemplo. Treine também o modo seletivo de analisar as mídias e a literatura sobre o assunto: dê preferência à Bíblia e textos de advogados, pedagogos, psicólogos e psicanalistas que tenham tido algum problema com pessoas homossexuais no passado de suas vidas. Não hesite em chamar alguns amigos que consigam escrever sem cometer muitos erros de sintaxe e de ortografia para divulgar nas listas de contatos de e-mail textos apocalípticos sobre a moral decadente do mundo de hoje, mascarando a questão do ódio aos homossexuais com idéias feministas e pseudomoralizadoras. Também nunca perca a oportunidade de relacionar pedofilia à homossexualidade: mesmo que a escola da sua filha tenha subido no ranking do ministério da educação depois que aquele professor gay ter se tornado diretor, uma mentirinha por uma boa causa é sempre bem-vinda!

Enfim, não tolere que os homossexuais conquistem direitos. Todo mundo sabe que a sua vida não vai mudar em nada, sua vida sexual não vai nem melhorar nem piorar, nem vc vai ganhar mais ou menos dinheiro; é uma questão de princípios morais: aquele casal homossexual não tem o direito de se casar e correr o risco de ser mais feliz do vc é no seu casamento sem graça!

Bem, ser um homofóbico de verdade não é fácil. Mas o caminho do céu (ou do Bem, ou da Moralidade, ou das Coisas Corretas e Direitas) não é fácil... como ser feliz na moral e na ética enquanto pessoas que vão pro inferno conseguem ser felizes sem fazer mal a ninguém?